“A família é um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e caribenhos e é patrimônio da humanidade inteira. Em nossos países, uma parte importante da população está afetada por difíceis condições de vida que ameaçam diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Cristo somos chamados a trabalhar para que esta situação seja transformada e a família assuma seu ser e sua missão no âmbito da sociedade e da Igreja” (DAp 432).
1. Áquila e Priscila:
exemplo de um casal cristão
“Paulo deixou Atenas e foi para Corinto. Aí encontrou um judeu
chamado Áquila, natural do Ponto, que acabava de chegar da Itália,
com sua esposa Priscila, pois o imperador Cláudio tinha decretado que
todos os judeus saíssem de Roma. Paulo entrou em contato com eles. Como
tinham a mesma profissão – eram fabricantes de tendas – passou
a morar com eles e trabalhar ali” (At 18,1-3).
Começou, assim, uma amizade duradoura. Esse casal acompanhará
Paulo em suas viagens apostólicas. Continuam narrando os Atos dos Apóstolos
que, saindo de Corinto, Paulo “navegou para a Síria e com ele Priscila
e Áquila” (At 18,18). Dessa forma foi-se acendendo neles o desejo
de levar Cristo a muitos. O Apóstolo deixa-os em Éfeso (cf. At
18,19) e parte para Cesaréia, Jerusalém e Antioquia, passando
depois pelas regiões da Galácia e da Frígia (cf. At 18,19-23).
Nesse meio tempo, chega a Éfeso um homem chamado Apolo, “homem
eloqüente, versado nas Escrituras. 25Tinha recebido instrução
no caminho do Senhor e, com muito entusiasmo, falava e ensinava com exatidão
a respeito de Jesus, embora só conhecesse o batismo de João”
(At 18,24-25).
Sobre esta passagem, comenta um santo dos nossos dias: “Áquila
e Priscila, um casal de cristãos, ouvem as suas palavras e não
permanecem inativos e indiferentes. Não lhes ocorre pensar: este já
sabe bastante; ninguém nos manda dar-lhe lições. Como eram
almas com autêntica preocupação apostólica, aproximaram-se
de Apolo, levaram-no consigo e instruíram-no mais acuradamente na doutrina
do Senhor (At 18,26)[1].
Depois de receber a instrução desse casal, como Apolo “estava
querendo passar para a Acaia, os irmãos apoiaram-no e escreveram aos
discípulos para que o acolhessem bem.. A presença de Apolo aí
foi muito útil aos que tinham abraçado a fé – pela
graça \de Deus.Pois ele refutava vigorosamente e em público os
judeus, demonstrando pelas Escrituras que Jesus é o Cristo” (At
18,27-28). Aquele simples casal cristão, fabricante de tendas, ajudou
a preparar um dos grandes pregadores do início do cristianismo.
“Talvez não se possa propor aos esposos cristãos melhor
modelo que o das famílias dos tempos apostólicos: o centurião
Cornélio, que foi dócil à vontade de Deus, e em cuja casa
se consumou a abertura de Igreja aos gentios (At 10,24-48); Áquila e
Priscila, que difundiram o cristianismo em Corinto e em Éfeso, e que
colaboraram com o apostolado de São Paulo (At 18,1-26); Tabita, que com
a sua caridade assistiu aos necessitados de Jope (At 9,36). E tantos outros
lares de judeus e gentios, de gregos e romanos, aos quais chegou a pregação
dos primeiros discípulos do Senhor.
Famílias que viveram de Cristo e que deram a conhecer Cristo. Pequenas
comunidades cristãs, que atuaram como centros de irradiação
da mensagem evangélica. Lares iguais aos outros lares daqueles tempos,
mas animados de um espírito novo, que contagiava os que os conheciam
e que com eles se relacionavam.
Assim foram os primeiros cristãos e assim havemos de ser nós,
os cristãos de hoje: semeadores de paz e de alegria, da paz e da alegria
que Jesus nos trouxe”[2].
2. “Ninguém dá o que não tem”
A evangelização
não é uma técnica, não é apenas uma transmissão
de conhecimentos sobre a religião católica. É fruto da
conversão pessoal que, como exemplo de vida, faz com que outros sejam
atraídos para Cristo. Aqueles primeiros casais de cristãos não
tinham livros, ainda não tinham o Novo Testamento, não haviam
sido escritos os Catecismos nem os manuais de teologia. Anunciavam a Cristo
com as suas palavras, mas especialmente com as suas vidas.
Daí a grande importância do exercício pessoal das virtudes
humanas e cristãs, que são a demonstração clara
que queremos seguir a Cristo. A compreensão, o mútuo respeito
e outras virtudes aprendidas no lar, como a primeira e melhor escola, têm
repercussão num âmbito mais amplo. Se no seio da família
se aprendeu a dialogar, a compreender os pontos de vista dos outros, a ceder
à própria opinião, a prestar serviços, será
mais fácil transmitir esses modos de proceder à sociedade.
“A promoção de uma autêntica e madura comunhão
de pessoas na família converte-se em (...) exemplo e estímulo
para as relações comunitárias mais amplas num clima de
respeito, justiça, diálogo e amor”[3]. Por isso, “é
fundamental que os pais dêem, nas suas famílias, um exemplo de
vida coerente”[4].
E mais: “É urgente, em todas as partes, refazer o espírito
cristão da sociedade (...). Os fiéis leigos – devido à
sua participação no ofício profético de Cristo –
estão plenamente implicados nesta tarefa da Igreja. Em concreto, corresponde-lhes
testemunhar como a fé cristã – mais ou menos conscientemente
percebida e invocada por todos – constitui a única resposta válida
aos problemas e expectativas que a vida coloca a cada homem e a cada sociedade.
Isto será possível se os fiéis leigos sabem superar, neles
mesmos, a ruptura entre o Evangelho e a vida, recompondo na sua vida familiar
cotidiana, no trabalho e na sociedade, essa unidade de vida que no Evangelho
encontra inspiração e força para realizar-se com plenitude[5].
Aqui é grande a importância da vivência dos Sacramentos por
parte do casal, sobretudo a Eucaristia, onde se unem profundamente a Cristo,
e a Confissão freqüente, onde se levantam e recebem a orientação
segura para começar e recomeçar sempre.
3. Primeiro local de evangelização: o próprio lar
A família é
a primeira escola das virtudes sociais[6]. Com freqüência, parece
ser mais cômodo, mais fácil, mais gratificante cuidar dos filhos
dos outros que dos próprios. No entanto, seria um grave erro edificar
a vida espiritual e apostólica às margens do próprio lar,
evangelizar os de fora, em detrimento dos de dentro, dos que estão mais
próximos de nós.
Os lares cristãos são chamados a serem sementeiras de vocações,
sacerdotais, religiosas e leigas, de pessoas decididas a serem santos de verdade.
Certamente, a formação na fé, como acontece com todo processo
educativo, deve ser progressiva, adequada à idade de cada um, respeitando
a situação concreta em que cada um se situa. Deve, sobretudo,
ser regada com muito amor.
Enquanto busca a santificação, a família:
a) É chamada a ser uma comunidade orante, a brilhar pelo dom e pela arte
da oração, ser escola de oração, de que Maria e
o próprio Jesus são modelos e mestres. A oração
é para a família um dom. O seu artífice é o próprio
Espírito Santo, que desperta em nós o desejo de orar, conduz a
nossa oração e, para que ela seja possível, cria a necessária
comunhão entre nós e o Pai. Assim, a oração é
a expressão da luz e da beleza do Espírito Santo em nós
e fonte de profunda alegria para quem crê.
b) É chamada a fazer a experiência do perdão, da partilha,
da correção fraterna, do acolhimento, do amor, na vivência
dos valores propostos por Jesus, de modo que todos contribuam para a santificação
uns dos outros.
c) È chamada a ser Igreja doméstica, vivendo intensamente o amor,
que se manifesta de modo especial no serviço, na atenção,
no cuidado, na busca do bem maior.
d) Não pode ser uma comunidade fechada em si mesma, mas deve estar presente
no mundo e também nele exercer a sua missão, de modo que a Igreja
se faça presente na realidade secular.
e) Fiel à vocação a que foi chamada pela graça do
batismo e do matrimônio, deve testemunhar, no mundo, os valores do Evangelho,
o que supõe a condição de discípulos e missionários.
Corresponde, portanto, aos pais fazer que seus filhos, superando os limites
da própria família, abram seu espírito à idéia
de comunidade, tanto eclesiástica como temporal[7].
O que se pode fazer no lar? Eis apenas alguns exemplos:
- Dever de sentar: estendê-lo de vez em quando aos filhos, sobretudo quando
já têm suficiente discernimento.
- Orações familiares em conjunto: bênção dos
alimentos, orações juntos antes de dormir, etc.
- Leitura e explicação da Bíblia, conforme a idade dos
filhos.
- Aproveitar os tempos fortes, como a Novena de Natal em família, Campanha
da Fraternidade, Aniversários, Mês da Bíblia, Mês
Vocacional, Campanha Missionária...
- Montagem do Presépio (Bento XVI, Advento de 2008)
- Retomar a prática do Terço em família (João Paulo
II em Aparecida, 1980)
- Fomentar a generosidade com os mais necessitados (visitas a creches, orfanatos,
asilos, etc.)
- A missão dos avós (Bento XVI na Espanha)
4. Missão na Família e da Familia
Além disso, as portas
do lar deveriam estar abertas a outras pessoas e famílias, num espírito
marcadamente missionário. O Papa João Paulo II, dirigindo-se a
um grupo de casais que promoviam atividades de orientação familiar,
animava-os a ajudar um grande número de famílias a educar seus
filhos, começando por procurar a melhora pessoal, um conhecimento mais
objetivo dos vossos filhos e tomando consciência da necessidade de preocupar-vos
também pelos filhos dos outros. Neste campo, em primeiro lugar é
preciso estar bem convencidos do lugar originário e fundamental que ocupa
a família, tanto na sociedade como na Igreja[8].
A missão do casal cristão, portanto, vai muito além do
dever de cuidar da própria família. A comunidade familiar é
convocada a estar aberta às outras comunidades semelhantes e à
sociedade inteira, como células de um organismo sadio que, mesmo tendo
vida própria, cooperam para o bem do corpo inteiro.
A confluência de gerações dentro de uma mesma família
é uma riqueza que é preciso apreciar: pais e filhos, os avós
e outros parentes próximos e, também, conforme a situação,
as pessoas que se ocupam do serviço doméstico. Muitos desses servidores
foram evangelizadas e até batizadas ou celebraram sua Primeira Eucaristia
no seio da família em que trabalhavam.
E mais! A família, em virtude da sua natureza e vocação,
longe de encerrar-se em si mesma, abre-se às outras famílias e
à sociedade, assumindo sua função social[9]. A vida familiar
pode, assim, alcançar um grande eco, um efeito multiplicador enorme em
prol de toda a sociedade.
A família cristã hoje, sobretudo, tem uma vocação
especial para ser testemunha da aliança pascal de Cristo, mediante a
constante irradiação da alegria do amor e da certeza da esperança,
da qual deve dar razão[10].
Como já consideramos no início, assim se comportaram os primeiros
cristãos. Os Atos dos Apóstolos narram como a primeira preocupação
das pessoas casadas que se convertiam, por exemplo Lídia (cf. At 16,14),
o guarda da prisão (cf. At 16,33) ou o chefe da sinagoga (cf. At 18,8),
consistia em transmitir a fé em Cristo aos demais membros da família.
Diante de uma sociedade que corre o perigo de ser cada vez mais despersonalizada
e massificada e, portanto, desumana e desumanizadora, tendo como resultados
negativos tantas formas de “evasão” – como são,
por exemplo, o alcoolismo, a droga e o próprio terrorismo –, a
família possui e comunica, ainda hoje, energias formidáveis, capazes
de tirar o homem do anonimato, de mantê-lo consciente da sua dignidade
pessoal, de enriquecê-lo com uma profunda humanidade e de inseri-lo ativamente,
com sua unicidade e irrepetibilidade, no tecido da sociedade[11].
Em outras palavras, não batam as atividades desenvolvidas em âmbito
paroquial ou eclesial. É preciso levar a fé cristã a toda
a sociedade. Ir ao encontro dos “novos areópagos e centros de decisão”[12].
Ter a coragem de enfrentar os ambientes difíceis, lugares aparentemente
refratários à mensagem evangélica. Para isso, é
preciso estar preparados para enfrentar temas difíceis e saber dar razão
da nossa esperança (cf. 1 Pd 3,15). Mostrar que vivemos porque acreditamos,
não porque nos disseram que é assim que se deve fazer. É
preciso formar-se bem e com profundidade; estudar os temas atuais, especialmente
os mais atacados, e dar respostas convincentes, não apenas decoradas,
mas aquelas que se podem defender com argumentos sérios, também
lógicos e científicos, sem se esquecer de pedir as luzes do Espírito
Santo para tomar a dianteira.
Outro local importante para a ação do casal cristão são
as escolas onde estudam seus filhos. A mobilização dos pais e
seu envolvimento nas decisões, sejam elas referentes à infra-estrutura
material, sejam de cunho pedagógico e formativo, tornam-se cada vez mais
necessários. Como alerta a Conferência de Aparecida, as novas formas
educacionais de nosso continente... aparecem centradas prioritariamente na aquisição
de conhecimentos e habilidades e denotam claro reducionismo antropolóico...
com freqüência, elas propiciam a inclusão de fatores contrários
à vida, à família e a uma sadia sexualidade. Dessa forma,
não não manifestam os melhores valores do jovens nem seu espírito
religioso; menos ainda lhes ensinam os caminhos para superar a violência
e se aproximar da felicidade, nem os ajudam a levar uma vida sóbria e
adquirir as atitudes, virtudes e costumes que tornariam estável o lar
que venham a estabelecer, e que os converteriam em construtores solidários
da paz e do futuro da sociedade[13].
[1] SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ, Amigos de Deus, n. 269.
[2] SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ, É Cristo que passa, n. 30.
[3] JOÃO PAULO II, Familiaris consortio, 22/11/1981, n. 43.
[4] JOÃO PAULO II, Homilia, 3/11/1982.
[5] JOÃO PAULO II, Christifideles laici, 30/12/1988, n. 34.
[6] CONCÍLIO VATICANO II, Decreto Gravissimum educationis, n.3.
[7] CONCILIO VATICANO II, Decreto Apostolicam actuositatem, n.30.
[8] JOÃO PAULO II, Discurso ao VII Congresso Internacional sobre a Família,
7/11/1983, n.1-2.
[9] JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, 22/11/1981, n.52.
[10] Ibidem.
[11] Ibidem, n.43.
[12] Documento de Aparecida, n.491.
[13] Documento de Aparecida, n.328.