S01Tema: “Casal cristão,
célula de evangelização”.
Leitura: At 18, 1-4, 24-26 – O casal Priscila e Aquila acolhe Paulo.
Salmo: Sal 103(102) 1.2a.14-15.24.27-28 - Bendize o Senhor!
Evangelho: Mt 10,5-9.23-33 – A missão dos doze.
S02Queridíssimos
irmãos, antes de tudo, a minha cordial saudação e a alegria
de estar aqui com vocês neste segundo encontro das Equipes brasileiras.
O seu país, particularmente amado por Padre Caffarel, é hoje também
amado por todos os casais das Equipes de Nossa Senhora espalhadas pelo mundo.
Neste momento, em particular, todos os casais são gratos porque a sua
Super-Região aceitou hospedar o próximo Encontro internacional
em 2012. S03 A E.R.I., com a solicitação que nos foi dirigida,
quis destacar a vivacidade e a força de seu país. Ao mesmo tempo,
com esta escolha, quis dizer a todos que o Movimento é internacional
e que sair dos limites da Europa para escutar as exigências, perguntas
e propostas de vocês é escutar todos os equipistas do mundo. Em
nome de todos, obrigado!
A palavra de Deus que vocês escolheram sugere algumas reflexões
que eu quero propor-lhes. S04Jesus revela o seu rosto mais autêntico,
na própria medida de Deus. Vendo as multidões, vendo-nos, vendo
a nossa contemporaneidade, Jesus tem um sentimento de compaixão. Não
de juízo, não de crítica, não de indiferença,
não de raiva. De compaixão!
Neste gesto percebo o reflexo do amor de Cristo que permite a Padre Caffarel
a sabedoria de responder aos primeiros casais que procuravam uma espiritualidade:
“Façamos o caminho juntos!”. S05Isto é, gastemos uma
parte do nosso tempo, da nossa vida, para alguma coisa importante. Busquemos
a vontade do Senhor no matrimônio cristão. No matrimônio
há o chamado para a santidade! O matrimônio é lugar de santificação.
Hoje, diante de nós, está uma multidão, um mundo cheio
de dúvidas, que busca a verdade. Nós somos o sinal de Cristo e
junto com Ele temos que ter compaixão, não julgar. Juntos com
Jesus devemos procurar caminhos, não fechar estradas. S06Por isso Jesus
inventa a Igreja! Vocês casais, junto com suas famílias, são
a Igreja doméstica.
Não nos contentamos em ser um número na Igreja, mas quisemos ser
pedras vivas que edificam o templo vivo ao redor de Cristo. Não é
fácil entender e amar a Igreja. São muitas suas fragilidades,
muitos os contra-testemunhos, muitas as pessoas que se dizem crentes e que nem
vivem como homens, muitas as incoerências, muitos os erros na história
para não duvidarmos quando se fala da Igreja. S07A escolha e o envio
dos doze por parte de Jesus é um sinal também para nós.
Com aqueles doze inicia-se a construir o Reino, primeiro junto com Ele, para
depois se tornarem capazes de conduzir para pastagens verdejantes por onde eles
primeiro serão conduzidos.
O nosso encontrar-nos, às vezes, nos faz alcançar os nossos limites
e nos faz defrontar com o desejo de uma Igreja que vive, pensa e faz sempre
as mesmas coisas. S08 Estamos com certeza apaixonados por percursos de unidade,
mas não de unanimismo. Olhar para os doze, enviados dois a dois, nos
faz pensar e nos encoraja: ninguém sonharia em colocar juntos doze pessoas
tão radicalmente diferentes para realizar um projeto! Pescadores acostumados
à praticidade e à rudeza colocados ao lado de intelectuais como
Mateus e João; tradicionalistas como Tiago junto com publicanos, pecadores
públicos, terroristas como Simão do grupo dos Zelotas, dispostos
a matar o invasor romano.
S09 Israel inteiro está neste grupo, a inteira humanidade em sua intensa
diversidade. A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus,
diferentes entre si em tudo exceto no amor ao Mestre, chamados a anunciar o
Evangelho com simplicidade e verdade. À humanidade ferida e frágil
que necessita de um guia, Jesus propõe um pedaço da humanidade,
igualmente frágil e ferida,.transfigurada.pelo.Amor.A missão proposta
aos doze é desconcertante: devem dirigir-se às ovelhas perdidas
de Israel.S10 É um convite atual e urgente: a Igreja precisa de testemunhas
que a reconduzam ao aprisco do Pai. Os primeiros destinatários do anúncio
do Evangelho somos justamente nós cristãos. Peço-lhes que
neste encontro não pensem para quem anunciar o Evangelho: acolham-no
vocês, acolhamo-lo nós.
A pobreza e o escândalo da Encarnação é também
isso: Deus escolhe se fazer anunciar por meio de pessoas inconstantes e duvidosas.
Nós somos, para os irmãos desgarrados, o consolo de Deus.
S11 Não tenham medo! É a outra expressão que lemos na Palavra
de hoje. Não tenham medo: vocês valem mais do que muitos passarinhos!
Um Deus que cuida dos passarinhos e depois se perde amoroso em contar os
cabelos da minha cabeça. E, no entanto, os passarinhos continuam
a cair, os inocentes a morrer, as crianças a serem vendidas. E Deus
a tranqüilizar os seus: «Não temais, nem um passarinho cairá
em terra sem a vontade de vosso Pai ». S12 E nos garante: nem um
passarinho cairá em terra «sem que Deus saiba», de um Senhor
envolvido no vôo e na dor das suas criaturas. Nada acontecerá na
ausência de Deus, mas no mundo pessoas demais caem no chão sem
que Deus queira, coisas demais acontecem contra a vontade de Deus: cada
ódio, cada guerra, cada injustiça. Mas nada acontece «sem
que Deus saiba». Ele se inclina até mim. Entrelaça a sua
esperança com a minha, o seu respiro com o respiro do homem, está
no reflexo mais profundo das nossas lágrimas para multiplicar a
coragem. S13 Por isso o mundo precisa de homens e mulheres que são reflexo
do amor de Deus.
Não tenham medo daqueles que matam o corpo: o corpo não é
a vida, você não é o seu corpo. Assim mesmo o reencontrará:
nem mesmo um cabelo se perderá. Para o amante nada daquilo que pertence
ao amado é insignificante.
A imagem dos passarinhos e dos cabelos contados, destas criaturas efêmeras
e frágeis, me leva aos ministérios que somos chamados a cumprir:
S14 Leva-me aos mais frágeis entre os irmãos, aos idosos, aos
doentes, aos excepcionais, aos que não podem mais trabalhar e produzir,
e se sentem inúteis e impotentes. É a ele que Jesus diz:
«Não temas: tu vales mais. Ainda que a tua vida fosse leve como
a de um passarinho ou frágil como um cabelo, tu vales mais, porque existes,
vives, és amado, e Deus se entrelaça com a tua vida».
O amor conjugal nos torna todos os dias sabedores das palavras que devemos dizer
a estes nossos irmãos: S15 Senhor, fiz pouco durante a minha existência
e agora não consigo fazer mais nada. E Ele responde: Tu vales mais, não
porque produzes, trabalhas, tens sucesso, mas porque existes, gratuitamente
como os passarinhos, fragilmente como os cabelos, nas mãos de Deus. Sobre
ti está a sua cura, sobre ti está o seu respiro. Onde você
acaba, começa Deus.
Gritem dos telhados! Eis a função da Igreja: anunciar a cada homem
a ternura de Deus. Para isso precisa encher os pulmões e gritar dos telhados
aquilo que experimentamos dentro de nós. S16Nesta não-lógica
de Deus, que confia nas nossas frágeis mãos do anúncio,
encontramos hoje o seu desejo de anunciar aos homens o seu verdadeiro rosto.
Somos chamados a gritar dos telhados que Deus conta também os cabelos
da nossa cabeça, que Deus não é feio e incompreensível
como o imaginamos, que Deus ama carinhosamente os passarinhos e conhece seus
sofrimentos, que Deus, o Deus de Jesus, é esplêndido. Gritar dos
telhados que Deus é grande, que Deus nos ama, que Deus está presente,
S17 como o coração do apaixonado que, cheio, quer comunicar a
todos a sua experiência.
Ao homem indiferente ou arrastado pelo caos da vida, Jesus anuncia o rosto suave
de um Deus que caminha conosco. Gritem dos telhados! E me lembro de todas as
situações em que nos envergonhamos de ser cristãos, em
que afirmamos que cremos, sim, mas com muitos parênteses, com muitas objeções,
para não fazer má figura diante da "modernidade", toda
vez que tentamos ser cristãos "politicamente corretos", S18
quando nos entregamos aos compromissos para ser acolhidos neste hipócrita
mundo liberal que é liberal somente com quem pensa como ele.
No fundo, porém, temos medo da nossa fé, acreditamos que devemos
quase desculpar-nos por crer, que as nossas razões vacilam diante do
pensamento moderno. Mas é assim? Talvez sim, para muitos.
Precisamos aprofundar a nossa fé, de sacudir a poeira da rotina e do
tradicionalismo, S19 para redescobrir o rosto extraordinariamente humano e misericordioso,
confiável e racional do Deus.de.Jesus.Cristo.
Gritem dos telhados! Não nas Igrejas, não nas sacristias, não
ao pequeno rebanho, mas na praça, no bar, no escritório. A fé
esteve por muito tempo escondida nos tabernáculos, sem ter a coragem
de contagiar a nossa vida. Não é este talvez o drama da nossa
fé? O de ficar timidamente escondida nos estreitos espaços do
Espírito? S20 Não é talvez porque Deus foi expulso da nossa
economia, das nossas escolhas, das nossas famílias, da nossa cultura,
para ser idolatrado no tempo do sagrado que muitos homens.olham.com.desconfiança.no.Evangelho,
como se quase fosse uma renúncia.à.plena.humanidade?
Gritemos do telhado este Evangelho, responsabilizemo-nos por ele, entremos no
grupo de quem leva a sério a ânsia de plenitude que inquieta o
Senhor.
S21Sejamos claros, porém: nada de integralismos nestes tempos de excessos
religiosos, em que se sopra sobre o nunca adormecido espectro das guerras de
religião.
Viver o Evangelho com seriedade não leva de forma alguma a agir sem o
respeito ditado pela caridade. Respeito absoluto pelas idéias e pela
experiência humana, com certeza, mas também a exigência de
ser reconhecidos cidadãos plenos, com uma experiência forte e reestruturadora
da sociedade. S22 Existe o risco de brandir a fé como uma arma, ou o
risco da insignificância.
"O amor nos empurra", dizia São Paulo. É o amor em Deus
e no homem que faz gritar nos telhados, é a percepção da
salvação que pode encher os corações que nos faz
sair para indicar a quem vive no medo e na solidão que existe uma plenitude
e que esta plenitude tem o rosto e o olhar de Cristo.
O crente, operário da compaixão. «Jesus, vendo as multidões,
teve compaixão». S23 O fim de uma carga infinita, belíssima.
Jesus sente dor pela dor do mundo. De fato: «A messe é grande»,
mas não pela quantidade de pessoas, mas porque está brotando no
mundo uma grande colheita de cansaços, de espigas inchadas de lágrimas,
uma messe de medos como de ovelhas que não têm pastor.
É este seu apostolado que Jesus confia aos discípulos. Torna-os
operários de um trabalho que descreve com seis verbos: preguem, curem,
ressuscitem, sanem, libertem e doem. S24 Em primeiro lugar tem o ministério
da pregação apostólica, mas unido ao ministério
da piedade divina, numa relação desbalanceada, de um a cinco.
O trabalho nos campos do Senhor se exprime em gestos concretos, em cinco
obras que mostram como «o Reino dos céus se aproxima» para
quem tem o coração ferido, e numa sexta obra que proclama
a proximidade de Deus. O discípulo é chamado a tomar conta
da causa de Deus junto com a causa do homem, a tomar conta dos rebanhos e das
messes, S25 das dores e das asas, de um mundo bárbaro e magnífico.
Áquila e Priscila, após ter vivido a experiência da prova
que os afastou de Roma, tornam-se acolhedores com Paulo e com outros que encontraram
em seu caminho. Revelam a Paulo, desanimado pelos fracassos e amedrontado, o
rosto daquele Deus que lhe havia dito “Eu estarei contigo” com a
sua acolhida. Ensinam a Apolo com a catequese o caminho da plena comunhão
com Cristo. Este casal nos faz vislumbrar um estilo. S26 Lembra-nos um pouco
a palavra do Evangelho: «O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos
mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde
tinha de ir....» (Lc 10,1). Isto é, ninguém é mediador
único do Evangelho, e ninguém é enviado sozinho. O Evangelho
pede sempre uma lógica de companhia, de compartilhamento, de comunicação,
também na fase embrionária da comunidade. A vida conjugal
é este lugar onde se faz experiência do anúncio, dois a
dois.
S27 Colhemos nesta pequena Igreja doméstica, um verdadeiro estilo evangélico:
somos pelo menos dois! Estamos em comunhão, porque o Evangelho é
uma palavra maior do que eu e a minha compreensão, e não posso
carregá-lo sozinho, senão corro o risco de carregar minhas opiniões,
minhas convicções, sacralizando-as.
Por exemplo, Paulo, procurava nunca andar sozinho, como se depreende dos contos
nos Atos. Tinha sempre um ou dois companheiros com ele. S28 Às vezes,
um parava numa cidade, enquanto Paulo prosseguia; depois um outro voltava para
manter os contatos e aprofundar a catequese. A obra evangélica nunca
é realizada por um 'dom Quixote' heróico e solitário...
Precisa ser ágeis, ter sempre de alguma maneira uma dimensão de
sinodalidade, um caminhar juntos no nome do Evangelho. E é uma comunhão
não idilíaca, mas trabalhosa; o próprio Paulo se cansa,
e briga, e se separa. Brigou com Barnabé e Marcos, depois brigará
com Pedro. S29 Cansa-se em compartilhar as opiniões daqueles que têm
tendências mais próximas daquelas do hebraísmo do que daquelas
que ele desenvolveu. Neste âmbito, o casal, vocês casais são
chamados a viver a comunhão entre vocês, em suas casas e a colocar
a serviço as suas capacidades. Neste sentido o Movimento nos quer ser
de ajuda para levar o Evangelho do amor no mundo.
Como amava dizer-nos Padre Caffarel: lembrem-se de que o motor e o coração
de tudo é a Eucaristia. Do viver e fazer Eucaristia deriva o seu estilo
de casal a serviço do Evangelho.