Queremos, primeiramente, transmitir-lhes toda a nossa alegria
por estarmos aqui com vocês, neste grande encontro que vê reunidos
tantos casais deste País onde as ENS são, realmente, uma semente
fecunda de amor e testemunho vivo da mensagem de P. Caffarel. E queremos agradecer
ao Roberto, à Graça e a todos os casais da SR Brasil que, ao nos
convidar para falar, nos presentearam com este encontro com vocês.
A palavra do Senhor que vocês escolheram como fio condutor para estes
dias “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Gs 24, 15) é
um tema muito interessante porque acompanha a reflexão teológica
destes anos que quer uma fé vivida na história do cotidiano; também
a nossa apresentação, que abordará o tema do casal cristão
célula de evangelização, está ligada a esta palavra
do Senhor porque a primeira coisa que nos perguntamos foi: por que o casal pode
e deve ser célula de evangelização? Simplesmente porque
lá onde um homem e uma mulher se amam e neste amor, acolhendo-se, se
encaminham juntos para fazer nascer a própria humanidade, lá transparecem
os traços do rosto de Deus. Disso resulta que se o rosto de Deus é
o rosto do Amor, o casal tem que anunciar através de sua própria
vida esta mensagem do amor divino. Mas, a seguir, vieram as outras perguntas
que construíram o percurso desta reflexão: Como, Quando, Onde,
o casal pode se tornar ícone vivente do amor de Deus?
Como? Simplesmente vivendo e se amando. Quando? Em qualquer momento e a cada
dia de sua vida. Onde? Nos lugares onde todo casal vive seu cotidiano. E se
as cidades, as terras, as nações são diferentes, existe
um lugar comum a todos os casais do mundo, a todas as famílias do mundo,
que pode ser habitado num testemunho espontâneo e contínuo de evangelização:
a casa.
Queremos lembrar a este respeito as palavras do astronauta Erwin enquanto girava
em órbita em torno da Terra: “A lua é bonita; o céu
é profundo e maravilhoso. Mas é somente na terra que o homem pode
morar, porque lá embaixo tem alguém que pensa em mim, que me olha
e me espera”.
Devemos estar cientes de que, entre as tantas experiências que a vida
nos oferece, aquela do habitar está entre as mais fortes e importantes,
porque habitar um lugar significa crescer através e graças “àquele
lugar”, lá onde podemos ter relações e tecer a trama
que constrói a nossa vida. Todos vocês têm amor, atenção
e cuidado com as suas casas, porque sabem que só assim poderão
torná-las vivas, sabem que a sua realidade de cônjuges está
fortemente ligada ao lugar onde vocês moram, sabem que dentro de suas
casas se estabelecem todos os dias relações diferentes que, graças
a elas, a sua identidade de pessoas e de crentes terá sempre novos espaços
de crescimento e de desenvolvimento.
Não é por acaso, portanto, que se diz “habitar a casa, habitar
a vida” porque realmente em nossa casa aprendemos cada dia a existir e
cada dia nos transformamos conforme a multiplicidade de experiências que
nela vivemos. E não é em outro lugar, a não ser na casa,
que todo casal pode aprender a se tornar célula de evangelização.
“Casa, para nós significa lugar de crescimento,
espaço interior, o tempo que passa, vontade de se fechar em casa e vontade
de fugir de casa, respiro de emoções...
Com certeza a casa representou um lugar de crescimento graças a todos
aqueles que dentro dela viveram trazendo sua bagagem de riqueza, onde mais falamos
entre nós, onde mais nos confrontamos conosco e com os outros, onde reelaboramos
através da palavra, da reflexão e da oração o que
nós estávamos vendo, escutando e vivendo “fora”.
Deu-nos sempre alegria abrir a casa aos outros e o fizemos sempre por escolha
e por prazer, mas não tivemos medo de ficar sozinhos em casa para saborear
a nossa presença mútua e para ter a possibilidade de falar e comentar
e conjeturar e planejar o nosso amanhã.
Não é talvez por acaso que, apesar de passarmos muito tempo fora
de casa por causa dos nossos compromissos, o nosso maior desejo diante de um
dia livre não seja tanto aquele de ir a um cinema ou de passear sozinhos,
mas de ficar em casa possivelmente em silêncio ou falando em voz baixa,
quase que a familiaridade das paredes, dos móveis, das coisas conhecidas,
consiga confortar os nossos cansaços e as nossas desorientações.
Às vezes temos vontade de ir embora, de sair de casa quando esta se torna
testemunha das nossas tensões e da nossa incapacidade de superá-las;
quando sabemos que lá dentro o clima está pesado e seria necessário
um esforço a mais para o qual não estamos prontos, quando não
a sentimos acolhedora e protetora, mas ameaçadora e anunciadora de mais
tempestades. É realmente um escapar, um fugir, mas é também,
de alguma forma, o desejo de não sobrepor sentimentos negativos a tudo
aquilo de bonito e de bom que ela nos permitiu viver.
E quando o prevalecer do negativo se torna mais forte, quando os nossos limites
de caráter e de fé impedem um passo de crescimento, sentimos a
casa estranha, longe, não pertencente ao nosso ser, incapaz de nos dar
alívio. Mas o que é realmente estranho? A casa que fica ali nos
esperando com toda a sua carga de vida vivida no seu interior ou a nossa maneira
de colocar-nos um diante do outro e juntos diante dos filhos e diante de Deus?
A coisa certa, então, é voltar para casa porque fora dela nos
sentimos ainda mais perdidos, ao passo que voltar significa ter vontade de recomeçar.
A casa, finalmente, como lugar de cultura e de expressão da nossa escolha
de fé, porque a sua decoração, os seus objetos, os livros,
são a nossa historia, são sinais do caminho percorrido, das orientações,
das experiências, do crescimento mais ou menos grande realizado. Objetos
que nos falam de um amigo, de um evento, fotografias que nos fazem lembrar pessoas
ou situações e renovam dentro de nós a experiência
vivida, folhas e papeis que nos falam do nosso trabalho profissional, dos nossos
compromissos inclusive com os outros, revistas e boletins que nos falam de realidades
diferentes das nossas e a respeito das quais queremos saber mais e desejamos
compartilhar, e outras realidades, como todas aquelas ligadas ao mundo das ENS,
para as quais sabemos que estamos trabalhando, ainda que de forma diferente,
junto com muitos outros, numa sinergia de esforços que constrói
o reino de Deus. Tudo isto está presente em nossa casa e nos envolve
e, sem que nos apercebamos, sustenta o nosso trabalho de cada dia.
Compreendemos então que a casa não é apenas
um lugar de abrigo realmente necessário para o desenrolar da vida, mas
sim o lugar fundamental para que a vida se manifeste em todas as diferentes
nuances das nossas emoções, sentimentos, afetos que às
vezes podem ter os tons claros e serenos da harmonia, às vezes os tons
fortes da alegria e da energia projetual e, às vezes, os tons apagados
e cinza dos momentos sombrios e difíceis. Em todo caso, a casa é
sempre um espaço excelente onde o casal anuncia todos os dias a sua escolha
de vida e de fé, onde o casal é, sem que talvez o saiba, a célula
pequena e grande de uma constante evangelização mútua e
dos outros.
A casa, com o passar do tempo, assume os traços de quem nela mora, porque
se alimenta da vida de seus moradores, assume formas, aspectos “humanizados”.
Cada casa tem o seu rosto: é, de acordo com os seus moradores, acolhedora,
fria, cativante, espartana, desarrumada ou caótica, elegante ou simples;
a casa, em silêncio, acompanha as histórias da vida de uma pessoa,
de um casal, de uma família e, em silêncio, registra todos os acontecimentos
tranqüilos ou dramáticos que se desenrolam na vida cotidiana e,
no fim, só uma casa realmente vivida dá a sensação
de ser habitada. Um quarto de hotel poderia estar até mais bem decorado
do que o nosso quarto, dotado de mais conforto, mais moderno e elegante, mas
quem de nós escolheria viver para sempre num quarto de hotel?
Cada casal pode desenvolver a sua realidade de evangelização começando
justamente pela casa onde mora porque uma casa é um projeto de intimidade:
objetos, luzes, cheiros, quartos, cantos, quartos de despejos, luzes e penumbras;
decoração, lâmpadas, quadros, livros, móveis, roupa
de cama, fotografias, perdem pouco a pouco o seu valor objetivo, não
são mais o que foram para assumir no tempo o valor simbólico de
alguma coisa que nos dá o significado de todos os valores que escolhemos
e de todas as coisas em que acreditamos. Morar é "sentir-se em casa,
abrigados por um espaço que não nos ignora, entre coisas que falam
da nossa vivência, no meio de rostos que não precisamos reconhecer
porque em seu olhar há os traços da nossa história”.
A casa vivida, não é uma "caixa inerte" e morar, portanto,
não significa simplesmente "estar num lugar", mas, sobretudo,
construir umas relações significativas, umas relações
com pessoas e objetos. O caminho que faremos juntos hoje para lhes falar do
casal cristão célula de evangelização é o
de atravessar uma casa, para compreender como cada espaço que cada casal
viveu em sua própria casa pode se tornar espaço de vida e não
apenas isso, mas cada lugar pode se tornar lugar “sacramental” se
se tornar sinal da presença de Deus.
Não é o credo, não é a liturgia, não são
as instituições nem as tradições que fazem com que
a Igreja seja Igreja, sacramento de Cristo. Mas é a fé no Senhor
presente que vivifica o credo, se manifesta na liturgia, se encarna nas instituições
e vive nas tradições. Tudo isso dá forma ao sacramento,
que é o instrumento mediante o qual o Senhor invisível se faz
visível na terra.
O mesmo ocorre na casa, lugar familiar e sacramental: existem quartos, corredores,
mesas, quadros nas paredes como em todas as casas dos homens. E, contudo, são
diferentes, porque o espírito que enche de afeto e de significado todas
estas coisas é diferente, e as torna familiares e “sacramentais”.
Do lado de fora talvez ninguém veja e possa distinguir. Somente o coração
sabe e discerne e descobre nas frágeis e freqüentemente contraditórias
aparências externas, um secreto intimo e divino: a presença do
Senhor ressuscitado que vivifica todas as coisas. (Boff)
A sala de estar, a nossa sala de estar
As casas de hoje mudaram de aspecto em sua estrutura interior,
espelhando desta forma também as mudanças ocorridas na cultura
familiar e na sociedade. A sala de estar sofreu também uma grande transformação.
Num passado não muito distante todas as casas tinham um quarto que era
mais reservado que os outros, separado do hall de entrada e dos outros quartos.
Era quase sempre um quarto fechado, não utilizado diariamente pela família,
sempre arrumado, era una sala geralmente ampla ou algumas vezes de dimensão
menor, mas sempre decorada com muito cuidado, que tinha específicas funções
de representação e de recepção dos hóspedes
e que se abria somente em ocasiões especiais. A sua função
visava mais uma finalidade exterior de representação da família,
que procurava mostrar o melhor de si à sociedade, do que uma concreta
utilização para os vários membros da família. Era
um ambiente não vivido, envolvido pela penumbra, que precisava ser preservado
dos efeitos danosos da luz, da poeira, mas sobretudo das pessoas que ali moravam,
reduzindo-o assim a um espaço inutilizado.
Atualmente, no entanto, é na sala de estar que se desenrola a vida cotidiana
da família. Hoje as nossas casas têm finalmente um espaço
plenamente vivido de dia e de noite, onde frequëntemente se fazem as refeições,
se brinca com as crianças, se executam as tarefas domésticas,
se assiste à televisão, se trabalha com o computador, um espaço
onde se compartilham amizades e relações familiares, sem se preocupar
com o aparecer.
A sala de estar é um espaço comunitário particular: o indivíduo
neste quarto pode manter a própria realidade pessoal e ao mesmo tempo
ter consciência de viver com e no meio dos outros. Quando a vida familiar
não é serena e harmoniosa, esta coexistência de privado
e comunitário pode ser também fonte de tensões, sobretudo
quando pesam os silêncios e o fechamento. Na sala de estar, de fato, se
celebram também as grandes reuniões e festas familiares: deveriam
ser as ocasiões em que as diferentes gerações se confrontam
entre si, mas às vezes se transformam numa mistura de silêncios
e incompreensões e o ar que se respira, de prazeroso e alegre, se torna
pesado e sombrio. Quanto espaço para um casal cristão ser evangelizador
e instrumento de mediação e de tolerância recíproca
na própria casa!
A sala de estar é o lugar onde o casal e a família vivem e celebram
a sua vida afetiva e relacional mas também a sede do encontro com a história.
Aqui, de fato, encontramos os outros e nos deparamos com pessoas que nos trazem
outros valores, outras culturas, outras histórias. Através destes
encontros verificamos o nosso modo de viver e transmitimos aos filhos a nossa
idéia de sociedade. A sala de estar é, portanto, o ambiente da
casa particularmente aberto para o exterior, a interface entre o dentro e o
fora. Precisamos que este quarto continue acolhendo toda possibilidade de encontro,
de palavra, de relação, de comparação; precisamos
que permaneça um lugar aberto à comunicação e à
hospitalidade. Este é um espaço forte de evangelização
para quem entra e é acolhido em nossa casa
“Sempre quisemos uma sala de estar grande, capaz de acolher pessoas, amigos,
parentes, capaz de se tornar lugar de encontro. Acreditamos que hoje, mais do
que nunca, precisamos alimentar a profecia da salvação através
do encontro e do relacionamento com os outros: hoje, onde tudo nos fala de interesse
individual, de proveito pessoal, de projetos no singular, todo casal para ser
célula evangelizadora deve viver a casa e especialmente a sala de estar,
como espaços abertos de compartilhamento e lugares de encontro. Esta
é a nossa forma de fazer morar Deus no nosso cotidiano do lar. Se Deus
vem ao nosso encontro através dos outros porque não acolhê-Lo
sempre, não buscá-Lo sempre, não recebê-Lo sempre
em nossa casa? Para nós sempre foi importante fazer entrar em nosso ambiente
privado não somente o amigo de sempre mas também o hóspede
de passagem que nos traz seu mundo, sua história e sua cultura; para
nós tem um significado particular “abrir portas e janelas”
para fazer entrar no privado o público, no individual o coletivo.
Deus habita a nossa casa porque rezamos para Ele juntos com os amigos das ENS
e juntos O procuramos engajados numa pesquisa compartilhada, fazemo-Lo sentar
à mesa conosco quando antes de uma refeição em amizade
nos lembramos dEle. Anos atrás todos pensavam que a televisão
fosse o instrumento capaz de nos abrir uma janela para o mundo, parecia, de
fato, que em nossas realidades familiares somente este objeto pudesse executar
a função de colocar-nos em contato com o mundo exterior. Hoje
a melhor coisa a fazer é deixar apagado o máximo possível
este instrumento de falsa comunicação que não nos traz
mais o mundo na sua realidade mas o esconde atrás uma folha de papelão
colorido, e utilizar o tempo para uma reflexão cada vez mais atenta e
comparada com a dos outros sobre as coisas que acontecem à nossa volta.
Hoje a coisa melhor é sentar ao redor de uma mesa e procurar ler e entender,
no olhar do outro, a história que se realiza todos os dias à nossa
volta.
A cozinha, a nossa cozinha
A cozinha é um dos lugares da casa que talvez tenha sofrido no tempo
as maiores transformações em termos de organização
e de espaço. Uma vez era o lugar no qual existia a lareira, quem não
se lembra das casas dos avós? Muitas vezes estas tinham uma grande lareira
que esquentava todo o ambiente e na qual se cozinhava diretamente sobre o fogo.
A convivência no mesmo quarto trazia um clima familiar quente, no qual
não havia um espaço individual, e tudo era de todos. Hoje, talvez
devêssemos dizer que, lamentavelmente, as nossas cozinhas se reduziram
ao essencial, se cozinha sobre as chapas de cozimento e no forno elétrico,
e, em algumas situações, se chega também à eliminação
da cozinha propriamente dita para transformá-la num canto para cozinhar.
Entrar na cozinha e compartilhar as inúmeras sensações
que oferece, é uma experiência que permite viver de forma mais
consciente um lugar da casa que representa o calor, o contato com o concreto,
o núcleo de uma casa viva, que na cozinha exprime a ligação
entre alimento e vida no cotidiano. A cozinha, de fato, assim como os nossos
dias, os nossos gestos e as nossas palavras, é um lugar de transformação
onde nada pode permanecer igual; pensemos, por exemplo, no trabalho do fogo:
graças a ele as coisas chegam cruas, como a natureza as produziu, e saem
diferentes, de acordo com as exigências do prazer. O que é duro
deve ser amaciado; os aromas e os sabores que estão aprisionados devem
revelar-se: cozinhar é como dar o beijo mágico das fábulas
que desperta o prazer adormecido. Não é isso que acontece na vida?
Não é isso que um casal deve testemunhar para ser evangelizador:
transformar as coisas com o fogo do amor…? O advento da sociedade tecnológica
levou a uma rápida evolução não só dos aparelhos
eletrônicos e dos eletrodomésticos, mas também no tempo
gasto para cozinhar. O cozimento em fogo lento, que requer tempos longos e muita
atenção, foi aos poucos substituído pelo pré-cozido
e pelo congelado já pronto, no qual se perdem e se confundem as características
peculiares para se chegar a uma comida homogênea e sem personalidade,
igual em todos os lugares do mundo. Cozinhar em fogo lento significa ter tempo
para gastar sem pressa, deixando que o calor modifique lentamente o alimento
e a sua estrutura. A metáfora é clara: muitas vezes arriscamos
de não reservar o tempo que é necessário para cozinhar
as nossas relações e modificá-las através do calor
das relações profundas; é necessário, no entanto,
estar atentos em respeitar os tempos de cozimento, os tempos de cada um: pode
acontecer, de fato, que uma relação inicialmente ainda crua, seja
cozida rápido demais, ou que seja esquecida no fogo a ponto de cozer
demais e perder o seu sabor e, portanto, o seu significado. A cozinha é
o lugar da casa onde se vive também com o nariz: o perfume do pão
na mesa e do vinho bom nos fazem lembrar a última ceia, no Cântico
dos Cânticos a amada reconhece o amado pelo perfume, no Qoelet se louva
o comer e o beber como a coisa melhor para um homem. Existe uma espécie
de “perfume de Deus” nas relações que vivemos, um
perfume graças ao qual podemos nos relacionar com os outros para caminhar
juntos em direção à fonte deste perfume.
“Há anos carregamos no nosso coração o valor da “teologia
do café”: o casal que de manhã, assim que se levanta, se
reencontra diante de uma xícara de café para bebericá-lo
juntos e tendo para frente um novo dia, vive um momento de união particular
que pode ser realmente lido em termos de fé. Aquele é o momento
em que tudo ainda deve ter começar: os compromissos individuais, os horários
freqüentemente imprevisíveis, as incumbências mais ou menos
agradáveis que serão executadas durante o dia, as exigências
dos outros que muitas vezes nos trazem inquietude, tudo por um instante mágico
fica como que suspenso e os dois cônjuges podem até trocar um gesto
de ternura, renovar no olhar a promessa de amor, rezar juntos... Nós
dois amamos muito este momento precioso da manhã quando a casa ainda
não ganhou vida e o cheiro do café tão peculiar e tão
familiar nos esquenta enquanto as palavras que trocamos têm ainda tons
baixos, as conversas não são muito articuladas e complexas mas
apenas esboçadas e a troca não é somente de informação
sobre os compromissos de cada um, mas dizer ao outro a respeito de seu dia para
que o outro possa de alguma forma acompanhá-lo e compartilhá-lo.
Às vezes o café, levado na cama, é um pequeno presente
que é dado ao outro se este não tem pressa de levantar: com certeza
é um presente apreciado que ajuda a começar melhor o dia porque
nos sentimos imediatamente, mesmo através deste pequeno gesto, acolhidos
e amados; o levantar-se juntos e o bater papo enquanto se espera que o aroma
do café faça despertar a casa é um pequeno espaço
da vida conjugal de um significado e valor particular. É estranho come
nunca pensamos devidamente na importância que tem na vida de todos os
dias a linguagem dos sentidos; talvez seja melhor dizer que não temos,
particularmente, noção do valor do olfato, considerado, de forma
errada, relativamente secundário em relação aos outros
sentidos. Temos certeza, no entanto, que uma casa sem cheiros seria muito fria,
um pouco asséptica e certamente pouco acolhedora; também os cheiros
da cozinha, frequentemente mantidos “sob controle” para não
invadir em demasia os outros quartos, na realidade dão alegria e segurança:
são o sinal de uma realidade familiar presente e viva, são o sinal
de quem trabalha para você que fica fora de casa, são o sinal concreto
de um anúncio da alegria de encontrar-se com os outros, com os filhos,
os amigos... ”
O quarto de dormir, o nosso quarto de dormir
O quarto de dormir é um quarto central, misterioso, rico como poucos
outros de conteúdos metafóricos. Outros espaços da casa
nos falam da família que ali vive, de sua história, de suas escolhas,
mas o quarto de dormir do casal remete ao âmago da realidade que está
na origem da família: o casal. Aqui o casal testemunha a si mesmo o amor
de Deus.
Este quarto tem um simbolismo extremamente rico: é o lugar onde se celebra
a liturgia do desvelamento: isto é do encontro com o outro que se revela
no tempo da vida conjugal, do conhecimento profundo que se torna comunhão,
da nudez acolhida pelo amor, da alteridade mais irredutível que se torna
riqueza para os dois e se remete ao totalmente Outro.
«E descobriram que estavam nus » (Gn 3,7). A criação
estará finalmente completada quando o homem não se assustará
mais por estar nu. Na vida de cada homem, ser capaz de desnudar-se, de ser autêntico,
de não vestir máscaras, é possível só depois
de um caminho de amadurecimento que nasce da experiência de sermos acolhidos
plenamente por aquilo que somos, sem reservas, sem esforço.
Sentir-se plenamente acolhido pelo parceiro nos dá uma identidade certa,
estável, madura, que não precisa de camuflagens; permite enfrentar
a vida sem vestir máscaras, ser autênticos, ir ao encontro do outro,
tornar-se dom para ele.
O quarto de dormir é o lugar onde se cumpre a vida teologal dos cônjuges:
onde nos levantamos amparados pela esperança, nos deitamos para exprimir
um amor total, nos abandonamos, com uma confiança sem reservas nos braços
do outro, ao sono e ao sonho; este quarto é como uma metáfora
do mistério da vida, dada e recebida, da manifestação de
um Deus que decidiu se encarnar e se fazer comunhão. É o quarto
da vida mais íntima de um casal, aquela que se realiza através
da relação sexual, relação que, em todo casal, tem
uma formidável potência cognitiva, porque é a forma mais
intima e intensa de dialogo, é premissa à comunhão completa.
Isto não significa que a sexualidade deva ser a única forma de
comunicação, nem que a harmonia sexual possa prescindir do diálogo
do casal, que consiste, em primo lugar, de comunicação verbal,
de projeto formulado conjuntamente. Mas no casal entrosado o encontro dos corpos
significa a totalidade do dom, sentir prazer em doá-lo ao outro, expor-se
na mais desarmante nudez, oferecer toda a própria fraqueza ao outro para
que a cubra com o seu amor, conhecer o outro em profundidade, penetrar em seu
mistério, entrar em seu mesmo comprimento de onda, registrar uma sintonia
profunda, fazer de duas histórias, de duas individualidades, de duas
personalidades, de dois corpos que se descobrem complementares porque diferentes,
uma entidade de relacionamento única, uma só carne. O encontro
sexual é a perfeita imagem da comunhão do casal: um fazer a unidade
sem assimilar o outro, receber do outro o que nos falta, possuí-lo doando-se,
encontrar a si mesmo perdendo-se.
A noite no quarto do casal é nudez real e simbólica, abandono
confiante em quem dorme a seu lado e fé na força positiva da vida,
mas isto só é possível se a noite chega após um
dia de harmonia. Caso contrário o quarto de dormir fica imbuído
de saudades, ansiedades, remorsos, já que é freqüentemente
testemunha do encontro e do confronto entre a abordagem da vida «masculina»
e «feminina», às vezes tão difícil de conciliar
e de tornar complementar e recíproca.. O cônjuge que dorme ao seu
lado pode se tornar assim o sinal de um compartilhamento imperfeito, incompleto,
que talvez tenha procurado dar uma explicação, uma interpretação,
às suas ansiedades mas não tem sido capaz de assumi-las emotivamente.
A noite se torna sintonia plena, entendimento perfeito, abandono mútuo,
só quando o compartilhamento é, ao mesmo tempo, a construção
racional de um projeto de vida e a co-participação emocional das
alegrias e das ansiedades do dia.
“Uma característica que marcou desde cedo o nosso relacionamento
sexual foi a clareza e a sinceridade: nunca fizemos amor contra a vontade, não
lembramos de ter feito alguma vez amor para agradar o outro e muito menos por
dever, e isto às vezes teve como conseqüência receber alguns
“não”, deixar desatendidos os desejos, mas que alegria pensar
hoje que toda vez que fizemos amor fomos levados pelo sim mais profundo, pelo
desejo mais verdadeiro e recíproco, pelo mais completo oferecimento ao
outro no desejo do outro. Aquele ser tomado pela Vida em seu instinto mais vital
e pela Vida em seu espírito mais alto, é o que se experimenta
no amor entre um homem e uma mulher. A experiência do encontro sexual
é também experiência de criação no verdadeiro
sentido da palavra porque experimentamos como uma positiva realidade de amor
vivido seja fonte de energia e gere novos espaços de vida. Compreendemos
e, sobretudo, acreditamos intensamente que, quando realizamos na forma mais
plena o encontro de amor, no mesmo momento realizamos também aquela unidade
de humanidade que Deus quis complementar no homem e na mulher, que somos realmente
imagem de Deus porque exprimimos na nossa relação mais profunda
a relação trinitária de Deus Pai, Filho e Espírito,
que somos a realidade mais verdadeira, terrena e concreta da imagem misteriosa
da natureza humana e divina de Deus
Mas a vida, se for realmente vivida plenamente, deve poder experimentar também
a dor, a solidão, a aridez de certos momentos, e na privacidade do nosso
quarto reencontramos o espaço adequado para retornarmos a nós
mesmos, para retomar o fio dos pensamentos, para procurar na reflexão
silenciosa ou conjugal sobre a Palavra a resposta que não encontramos
em outros lugares. A solidão não tem somente a cara do desespero,
mas também da procura de nós e de nossa interioridade, e somente
um canto privado da casa pode nos dar de presente esta experiência de
procurar e encontrar a si mesmo. A solidão que procuramos na privacidade
do nosso quarto é também manifestar a cura para nós mesmos.
De qualquer forma, nos amamos porque nos damos de presente aquilo de que necessitamos:
um pouco de silêncio, um diálogo interior, um descanso. A dor pode
encontrar conforto no calor tépido que te acolhe, de um cobertor que
te cobre, na penumbra que te protege da luz muito forte, que te fala de uma
realidade não aceitável naquele momento. Sim, a cama pode representar
o abrigo momentâneo no ventre materno onde procurar segurança e
retomar energias diante de dificuldades que nos parecem muito árduas,
uma pequena regressão que exprime o justo desejo de voltar, de vez em
quando, a ser crianças e experimentar não somente a insegurança
dos pequenos, mas também o desejo de ser amados e acolhidos, para aprender
a amar e a acolher. A consciência de sentir-se fracos e precisar de ajuda
nos permite entender quem é fraco e precisa de ajuda.
O banheiro, o nosso banheiro
Nunca como nestes últimos anos assistimos à difusão de
um cuidado especial para o banheiro seja em suas peças fixas como em
seus conteúdos. Proporcionalmente, também a despesa relativa a
produtos para o nosso corpo tornou-se uma voz consistente no orçamento
familiar. Estes cuidados com a limpeza e esta cura do corpo são apenas
o fruto de uma maior “civilização” ou uma necessidade
de “mimar” o nosso corpo com perfumes e cremes e de “esquentá-lo”
enquanto sentimos ao nosso redor uma maior “frieza” relacional dada
pelo individualismo cada vez mais dominante?
Antigamente, na civilização romana, por exemplo, o banheiro era
um lugar de relação (as termas, os banhos públicos), hoje
é impensável algo parecido, aliás, diante de uma liberdade
sexual cada vez maior, sentimos quase vergonha se alguém inadvertidamente
entra no banheiro que nós estamos ocupando…Nos despimos na praia
mas não dividimos o banheiro: porque esta diferença entre as nossas
nudezas? Talvez porque num lugar público, na praia, na discoteca, na
rua... mostramos, ou acreditamos mostrar, a parte mais “apetecível”
de nós, aquela certamente mais cuidada e controlada, enquanto no banheiro
de casa, na nossa privacidade, somos como somos, na nossa verdadeira nudez e
pobreza… Então, talvez devamos, mais uma vez, refletir que simplesmente
temos medo de nos mostrar como realmente somos... E este constrangimento, se
realmente o vivemos desta forma, não pode não se estender também
ao relacionamento com o nosso cônjuge com o qual talvez tenhamos dificuldade
em nos mostrar nas nossas nudezas e pobrezas.
Entrar no banheiro muitas vezes é o desejo de afastar-nos de tudo, é
reencontrar um espaço só para nós mesmos, é talvez
a necessidade de tomar distância de tudo e de todos. Fechar a porta à
chave em alguns casos nos dá uma sensação de abrigo; quem
sabe se é apenas a vontade de “estar em paz” ou sentimos
que alguma outra exigência nos leva a querer ficar sós?
Muitas vezes no banheiro, sozinhos, nos olhamos no espelho não tanto
para nos avaliar esteticamente mas para nos interrogar. Olhar-nos nos olhos
e perguntar-nos “em que ponto estamos”; desta forma o banheiro se
torna um lugar de procura de nós mesmos, um lugar onde lemos no espelho
que está dentro de nós mesmos e não podemos trapacear porque
diante daquele espelho estamos só nós.…Levantamos questões
que mais nos atingem “por dentro”, nos dizemos as coisas que somos
capazes de confessar somente a nós mesmos, quando estamos a sós
e os nossos olhos nos enviam as perguntas que a nossa boca talvez não
seja capaz de formular abertamente. É fazer um balanço, um resumo
da própria vida, um olhar para Deus e colocar-se à sua presença
para julgar-se, mas também um perdoar-se, um acolher-se de novo, um reencontrar
as forças para tentar retomar o caminho.
A água que no banheiro, como na cozinha, enche este lugar é, mais
ainda, o símbolo de um fluir da vida que traz consigo dor e amor, acolhida
e perdão. Desejo de se fazerem novos e de renascer toda vez de uma maneira
nova.
“Estamos cientes que o nosso corpo fala tanto quanto a nossa boca e que,
de fato, vivemos uma estrita correlação entre intimidade, afetividade
e corporalidade. Se estamos bem conosco mesmos e com o mundo que nos rodeia,
o nosso corpo se distende, se abre a gestos de acolhida e, quando estamos em
dificuldade relacional ou vivemos uma situação de fechamento ,
manifestamos também uma rigidez corporal como defesa. As barreiras levantadas
pelo próprio corpo, mesmo invisíveis são muito resistentes
e só uma igualmente forte capacidade de calor e de emotividade afetiva
consegue conduzir devagar de volta à distensão positiva que significa
abertura à relação. Às vezes sentimos a necessidade
de estar a sós conosco mesmos porque é necessário fazer
as contas com o próprio eu diante de certas posições a
serem assumidas, ou de certas decisões a serem tomadas, quando o outro
que está a seu lado pode ser companheiro mas não pode substituir-se
nas escolhas que você fez… Outras vezes, porém, o banheiro
é também o lugar onde nos abrigamos para buscar conforto para
uma dor tão grande que parece que não possa ser compartilhada;
ali, no banheiro se pode chorar e depois enxaguar o rosto e, após tê-lo
regenerado com água fresca, se procura retomar o caminho, e a porta que
se abre de novo significa “estamos prontos para recomeçar...”
O porão, o nosso porão
A vida de cada dia nos leva a correr atrás de compromissos e de necessidades
e muitas vezes não nos sobra tempo para uma justa e oportuna reflexão
sobre as coisas e as experiências, mesmo sabendo que, cientes ou não,
tudo vem atrás de nós, e que nada daquilo que vivemos é
perdido. E isso ocorre também se e quando a memória parece não
ser nossa amiga, também se e quando nos ofusca e confunde as lembranças
que a custo conseguimos distinguir, também se e quando parece jogar de
esconde-esconde com o nosso coração fazendo pular viva e vital
diante de nossos olhos uma voz ou um rosto que acreditávamos perdido
para sempre.
A vida de hoje, com os seus tempos tão rápidos e prementes, parece
nos querer obrigar a proceder sem nunca dirigir o olhar para o passado, com
o corpo e com a mente constantemente projetados para frente: para frente para
fazer, construir, realizar, afirmar, se tornar.. Sem nenhuma dúvida é
por si só positivo caminhar na vida serenamente voltados para frente,
com vontade de projetar todo dia novas modalidades do ser e novos espaços
de criatividade, mas seria um grande erro pensar em abrir mão do que
foi e do que fomos, pensar em poder privar a mente da reflexão consciente
a respeito do percurso feito, dos caminhos percorridos, das trilhas procuradas
e não encontradas, e seria um erro ainda mais grave pensar em poder privar
o coração da experiência forte do “sentir-se vivos”
que pode nascer de uma emoção profunda trazida por uma lembrança
longínqua.
O porão, real ou simbólico, é o lugar da memória
tangível, lá onde se colocam objetos que aos poucos não
servem mais ao nosso presente, mas dos quais sentimos que não podemos
desfazer-nos porque estão muito carregados de significado e de valor,
é o lugar que visitamos de vez em quando, impelidos por uma exigência
concreta, mas também solicitados pelo desejo de afastar-nos do presente
para reencontrar antigas emoções ou para reviver sensações
que pertencem somente a nós. Não são todas as casas que
têm um porão real, mas cada casa esconde um pequeno porão,
uma gaveta, um canto de armário, um mezanino obtido pelo rebaixamento
de um forro ou, de forma ainda mais essencial, uma mala ou uma caixa de papelão
capaz de conter a bagagem das lembranças, o fio da memória, as
raízes de cada história. Às vezes, realmente, vamos mexer
nas coisas velhas não para buscar algo específico, mas só
pelo desejo de passear entre objetos que não fazem parte do nosso cotidiano,
mas que têm ainda para nós e dentro de nós um forte significado.
São coisas que nos fazem voltar no tempo, trazendo para a memória
momentos ou episódios distantes que conservam ainda todo o poder de uma
emoção profunda que nos toma totalmente num instante, anulando
qualquer distância.
Na realidade nem precisamos ter também um porão real no qual ir
procurar coisas ou objetos que nos conduzam atrás no tempo: carregamos
o porão secreto dentro de nós, num canto da nossa mente, no espaço
profundo do nosso coração, lá onde tudo o que se viveu
está presente, onde talvez algumas situações, algumas experiências,
algumas sensações estejam apenas colocadas na sombra, prontas
a reencontrar toda a sua força emocional impetuosa se somente uma palavra,
um gesto, uma lembrança venha a lhes devolver luz e vida. O porão
de cada homem é o lugar escondido que contém a bagagem de cada
vida.
O que há de inexistente mas real no nosso porão? Muitíssimas
coisas, muitíssimas pessoas, muitíssimos acontecimentos que construíram
os nossos trinta e mais anos de casamento, tem algumas figuras importantes como
aquelas dos nossos pais com os quais mantivemos relações diferentes
no tempo, às vezes conflitantes e depois cada vez mais serenas, surgem
rostos de um avô e de um tio particularmente amados e que consideramos
fundamentais para a nossa formação, rostos de amigos que não
estão mais entre nós, mas que sentimos fortemente presentes ao
nosso lado. E, depois, estamos nós com as palavras que nos dissemos nos
anos, com os gestos de acolhida, de confronto, de perdão e de amor que
doamos um ao outro.
Somos um casal com muitos anos de casamento e um caminho tão longo não
pode ser sem obstáculos e assim foi também para nós: ao
lado dos dias de amor e de entusiasmo vivemos também os dias de decepção,
de solidão, de sofrimento e de dor; contudo hoje conseguimos dizer “obrigado”
também por estes dias porque é a experiência da alegria
e da dor que permite crescer sempre mais em "humanidade". A nossa
vida de casal foi e ainda é toda uma sucessão de ir e vir ao encontro
e de encontro ao outro, uma sucessão de sentimentos que, às vezes,
nos fazem convergir e outras vezes parecem que nos fazem afastar... Queremos
referir-nos a todos aqueles momentos em que prevaleceu o egoísmo em nossa
vida, o desejo da própria afirmação, a fraqueza e o cansaço,
momentos gerados por nós mesmos quando estivemos muito cansados para
dedicar as nossas energias em favor do outro, quando estivemos muito fracos
e pobres para renunciar à tentação sempre presente de nos
sobrepor ao outro, quando estivemos muito ocupados conosco mesmos para perceber
que estávamos esquecendo o outro e suas necessidades. Mas não
existem coisas que não nos perdoamos, não temos rancores se agitando
nos antros cavernosos da nossa mente, temos, porém, ainda coisas para
nos perguntar e coisas que esperamos um do outro. Zonas de sombra que ainda
esperam a luz, uma luz que nos ajude a tornar mais claros certos cantos, que
nos permita colocar em foco certos pensamentos e certos sentimentos que ainda
moram em nossa intimidade de forma desordenada ou, talvez, desfocada, ou escondida.
Uma luz capaz de iluminar a escuridão: pode ser o raio de sol que se
infiltra na atmosfera obscura do lugar, pode ser a mão que encontramos
pronta a acolher-nos e a sustentar-nos no nosso avançar às vezes
um pouco às cegas, pode ser a Palavra de Deus Pai que chega de repente
para nos abrir caminhos e trilhas, também entre as coisas, os objetos,
as lembranças, os sentimentos, que, sozinhos, não havíamos
conseguido vislumbrar...
Iluminar as zonas
de sombra da nossa vida significa buscar a orientação da Luz de
Deus, significa, concretamente, continuar a se mover entre as coisas do mundo,
entre as coisas dos homens, inclusive na escuridão do porão ou
na escuridão de alguns dias e de alguns momentos, certos de que estamos
nos movendo entre as coisas de Deus, significa ter a consciência que quando
dirigimos a Deus a oração “de nos fazer morar todos os dias
de nossa vida na casa do Senhor...” (salmo 27), na realidade é
o que já nos foi dado, mesmo que não sempre nos lembramos, e continuamos
a pensar, como quando éramos crianças, que ”Deus é
o Ser perfeitíssimo que está no Céu, na terra e em todo
lugar” e assim dizendo O tornamos invisível e desencarnado da vida
cotidiana, da história das pequenas histórias, do coração
de todos aqueles que vivem ao nosso lado.
Se é Luz do mundo, ou melhor, já que é a Luz do mundo,
o nosso Deus, aquele que se fez Homem por nós, deve ser Luz também
no nosso quarto de dormir para dar profundidade divina ao nosso unir-nos conjugal,
nas nossas salas de estar para impregnar de sua sabedoria os nossos discursos
que orientam nossas escolhas, nas nossas cozinhas para ensinar-nos a compartilhar
a alegria do alimento preparado, oferecido e saboreado juntos, nas nossas varandas
para iluminar os rostos de quem corre o risco de passar pela rua indiferente
e despercebido aos nossos olhos, nos nossos sótãos para fazer
resplandecer de um significado novo todas as coisas vividas com dor ou com amor,
mas que não devem ser esquecidas.
Se a evangelização é entregue por Deus às nossas
pobres vidas, se a oração é realmente abandono entre os
braços do Pai: nEle depositamos as nossas esperanças, nEle colocamos
as nossas dores e as nossas preocupações, com Ele conseguimos
olhar o amanhã dos nossos dias também quando a fadiga cotidiana
deixa nosso olhar baixo e incapaz de levantar-se em direção a
horizontes mais amplos e luminosos. Este é o único modo que a
vida nos ensinou para procurar ser um casal cristão, célula de
evangelização e mensageiros do amor de Deus para a humanidade.
Isso é o que quisemos compartilhar com vocês hoje para que as suas
casas sejam habitadas pelo amor de Deus e possam doar, a quem nelas entrar,
o respiro e o perfume do amor de Deus: que as nossas casas tenham sempre este
espaço de oração que se faz vida e de vida
cotidiana que se faz sacramento de Deus.