- Nos últimos anos refletimos bastante sobre o Sacramento do Matrimônio, sobre Espiritualidade Conjugal, e procuramos retornar às fontes para retomar a proposta das ENS.
Em 2010, nossa reflexão procurará concretizar-se mais, descendo para a realidade do dia a dia. Procuraremos ver como na realidade cotidiana da vivência conjugal é que temos a ação sacramental de Cristo. Na vivência dessa realidade sacramental cotidiana é que está o caminho da espiritualidade conjugal, e da felicidade. Teremos êxito se os casais equipistas assumirem corajosamente a vivência do dia a dia conjugal como seu caminho de felicidade e de santificação.
- O tema, em seus oito capítulos, foi elaborado por sete
casais da Super Região Brasil, de diversas regiões e de diversas
faixas etárias.
Nesta palestra não pretendo nem mesmo condensar todo o conteúdo
muito rico que eles criaram, pois que vocês terão todo um ano para
assimilar a proposta. Destacarei apenas alguns aspectos do texto, e tentarei
acrescentar algumas outras perspectivas que possam ajudar, e talvez ampliar,
a reflexão nos próximos meses.
1. O SACRAMENTO DE UM AMOR NOVO
Amor que é dom
- Em certa altura da vida vocês encontraram uma pessoa que chamou sua
atenção, conquistou sua simpatia, ganhou seu amor.
Era um amor diferente, entre homem e mulher; não era simples amizade,
era mais exigente. Como todos dizem, isso mudou sua vida, sua maneira de ver
as coisas, seu jeito de pensar o futuro.
Pensando bem, nada justificava essa preferência mútua. A única
explicação que poderia dar para seu amor era que se amavam “porque
sim”. Havia simpatia, admiração, carinho, atração
física.
- Como cristãos vocês sabem que nisso não
havia nem um simples acaso, nem um fato puramente humano e natural. Deus estava
agindo em vocês, fazendo que o dom infuso do amor-caridade se concretizasse
em amor-caridade conjugal especial, exclusivo, voltado para essa pessoa em particular.
Cristo agia em vocês para que esse amor fosse felicidade e salvação
para vocês e para outros.
Amor que se tornou sacramental
- Quando vocês se casaram, pelo poder de Cristo esse amor tornou-se sacramental.
O poder de Cristo que salva e faz feliz atinge vocês através desse
amor que um recebe do outro. Amor que, é bom repeti-lo, é ao mesmo
tempo caridade sobrenatural, livre opção, afeto, atração
física e carnal, amor sexuado entre um homem e uma mulher.
- O amor conjugal (no seu sentido total e mais concreto) que
vocês recebem do outro:
• traz alegria
• ajuda-os a vencer o pecado e a crescer na virtude
• ajuda-os a se realizar como homens e mulheres
• abre-os para o amor paterno e fraterno, às preocupações
com a Igreja e o Mundo
• oferece-lhes o perdão
• consola e fortalece
• desafia e incita
• leva-os para união maior com a Trindade
- O amor conjugal (no seu sentido total e mais concreto) que
vocês têm pelo outro:
• ajuda-os a vencer o egoísmo, a se abrir, a aprender a ouvir e
compreender
• torna-os disponíveis, ternos e carinhosos
• discretos, moderados, abnegados, perseverantes
• generosos e capazes de perdoar
Amor que exige contínua reconversão
- Talvez me digam que um amor assim é sonho irrealizável. Irrealizado,
sim. Irrealizável, não. O que se exige é contínua
conversão para o amor, contínua procura, sede sempre renovada.
• Humanamente o que se exige é que vocês saibam relembrar
o que viveram na primeira descoberta do amor, não para tentar repeti-lo,
mas para erguer-se a um estágio ainda mais elevado, para vivê-lo
agora de maneira muito mais intensa.
• Sobrenaturalmente se exige que se convertam sempre para uma caridade
maior: mais total, mais generosa, e também mais encarnada nas manifestações
do afeto e da sexualidade.
Exige-se que, para viver o sacramento do amor, você procurem a graça
de Cristo também nos outros sacramentos, na oração, na
vida de comunidade-igreja.
Amor promessa de eternidade
- Por maior que seja o amor, não é bastante para o casal, que
precisa aprender a esperar o amor pleno na realização final. Isso
o leva a valorizar o amor de agora, sem o absolutizar.
2. O SACRAMENTO DA CONVIVÊNCIA
- Vocês se casaram porque já não podiam viver um sem o outro, queriam estar sempre perto, ao alcance dos olhos, da voz, das mãos... Acho até que Deus assim queria levá-los a perceber o quanto precisam dele.
- Homem e mulher querem conviver, para felicidade mútua, para se conhecer, para se doar, para se enriquecer, para não ser sós.
A presença de Cristo na convivência do casal
- O casal, é comunidade eclesial, tem a presença de Cristo, é
realidade sobrenatural e não apenas humana.
A vida de comunidade-igreja, baseada na fé, esperança e caridade,
é o sacramento fundamental, do qual brotam os outros.
Assim também na convivência do casal temos concretização
sacramental da ação salvífica de Cristo para o casal e
a família.
A convivência que salva e faz feliz
- A graça de Cristo, que salva e faz feliz, concretiza-se e manifesta-se
nas realidades concretas da convivência de um homem e uma mulher:
• na convivência está uma resposta de Deus para que homem
e mulher não estejam sós
• na convivência do mistério masculino com o feminino há
possibilidade grande de enriquecimento mútuo, de descoberta, de novas
perspectivas
• na vivência conjugal da sexualidade resposta divina para anseios
• na possibilidade de um diálogo sem restrições,
na plena confiança de quem se revela por amor a quem o ama
• a convivência tem também suas exigências ascéticas...
Os “sacramentos da convivência conjugal”
- Tentei apenas fazer algumas sugestões: convido-os a fazer uma longa
viagem de reconhecimento através de sua convivência esponsal, para
descobrir os inúmeros “sacramentos” que a pontilham, como
aqueles brilhos de cristal na areia da estrada.
3. O SACRAMENTO DA SEXUALIDADE CONJUGAL
- Talvez não seja desnecessário dizer que Deus
não nos quer salvar da sexualidade, mas que nos quer salvar também
pela sexualidade. Sexualidade, aliás, que foi assumida pelo Filho de
Deus na encarnação.
A sexualidade é bênção de Deus
- O conjunto da vida matrimonial, pela presença de Cristo, é sacramento
de salvação. Por isso também a sexualidade e a vida sexual
conjugal fazem parte do sacramento do matrimônio.
Ou seja: a sexualidade e a vida sexual do casal podem e devem ser fatores positivos
de santificação, canal sacramental para a graça.
- Vou apenas lembrar que o relacionamento sexual tem sentido enquanto linguagem
veraz de amor verdadeiro entre homem e mulher.
Os toques de Deus
- Sexualidade e vida sexual não são apenas realidades biológicas.
São toques de Deus modelando o barro para que surja homem e mulher, Adão
e Eva de todos os tempos para o Paraíso prometido e sempre sonhado.
- Pela presença do poder salvífico de Cristo,
a sexualidade e a vida sexual conjugal são fatores de salvação
e felicidade:
• a sexualidade é nosso jeito de ser imagens de Deus; por isso
o encontro e a convivência entre homem e mulher ajuda-os a entender a
si mesmos e abre uma fresta para podermos intuir algo de Deus
• o confronto entre duas sexualidades distintas obriga homem e mulher
a se abrir ao diferente e a amá-lo, reconhecendo seus limites
• a vivência da sexualidade não se deve restringir ao relacionamento
sexual: deve dar o tom e o colorido a todos os momentos da vida; um tem de ser
sempre para o outro homem-sacramento, mulher sacramento
• o amor conjugal é salvífico: o relacionamento sexual conjugal
é manifestação e concretização desse amor
• é entrega que acalma, é promessa que tranqüiliza
• é possibilidade de compreensão acima das palavras e dos
conceitos
• é forma de perdão e reconciliação mais clara
que as palavras
• incapaz de satisfazer plenamente, remete para a realização
final, quando mutuamente poderão ser felicidade plena um para o outro.
4. O SACRAMENTO DA FAMÍLIA
- Deus salva-nos introduzindo-nos na comunidade da Trindade
e na comunidade de irmãos reunidos em torno de Cristo.
- A família é uma forma dessa comunidade salvífica, onde
se vive a salvação e onde se amadurece para a comunhão
eterna. Isso significa que a própria vida familiar (o relacionamento
familiar em suas várias formas) é salvífica, é concretização
da ação do Cristo.
- Na convivência familiar (com os filhos e outros) concretiza-se também
o sacramento do matrimônio e a espiritualidade conjugal.
- Estejam, pois, atentos e vivam como sacramentos e como momentos
de graça cada um desses elementos:
> Paternidade – Maternidade
> Gestação:
> Nascimento, infância
> Adolescência, juventude
> Ao bater das asas
> Em cada etapa: como ser fonte de vida plena, como doar-se; como educar-se
educando; como crescer, como aprender abnegação; como abrir-se
para um fecundidade mais ampla...
> A aventura familiar – entrega total nas mãos do Pai - porque
humanamente o casal não tem o controle total, por várias razões:
> Começando pelo casal: homem e mulher, com histórias familiares
diferentes e talvez diferentes culturas
> Com os filhos (e talvez outros): convivência entre diversas gerações
> Diversidade na maneira de reagir diante do ambiente menos favorável
> Todo esse conjunto exige resistência, reação, mas também
favorece o amadurecimento.
5. A LITURGIA DOMÉSTICA
- Pelo batismo, pela presença de Cristo, toda a nossa vida e toda a vida de nossa comunidade (Casal, Família, Igreja) pode e deve ser um ato de culto à Trindade e um momento (sacramento) de salvação para nós. Por isso podemos falar em liturgia doméstica: todo esse conjunto é uma realidade humana é ao mesmo tempo divina. É culto é fonte de felicidade, salvação, santificação e aperfeiçoamento.
- Temos de tomar consciência dessa realidade para a viver
em toda a sua potencialidade, seja nos momentos do dia a dia, seja em momentos
especiais. (Paulo diz: quer comais quer bebais... – 1Cor 10,31)
Os momentos rotineiros
- Que momentos?: o encontro, o cumprimento, o carinho, a refeição,
o prestar um serviço ao outro, ao receber um serviço, o lazer,
o esporte, os trabalhos domésticos etc.
- Como?
• Fazer fazendo, conscientemente, de coração, saboreando
• Os antigos mestres espirituais recomendavam que antes se renovasse a
“boa intenção”, o querer fazer por Deus e pelos outros;
retomar a finalidade que dá sentido a tudo
• Em casal e em família analisar o cotidiano para destacar alguns
momentos a serem mis valorizados
• Nem sempre é preciso “rezar”, mas sempre fazer de
cada momento um encontro real com Deus e com os outros
• Por que não recuperar o “bênção”,
“vá com Deus”
Os momentos especiais e planejados
- O momento da oração conjugal e familiar, o domingo, as festas
cristãs, as datas familiares, celebrações especiais, o
nascimento, o batismo, a 1ª eucaristia, crisma, 15 anos, formatura, noivado,
casamento, doença, morte...
- Como?
• Reflexão para ajudar a destacar o sentido; por que não
verbalizar?
• Viver o momento como louvor, agradecimento, súplica, reconciliação,
votos, esperanças, partilha, carinho, acolhimento
6. CASAMENTO, PONTE ENTRE O PASSADO E O FUTURO
- O casamento não é projeto meramente individual
ou do casal, não se destina apenas a satisfazer os anseios de um homem
e de uma mulher. Envolve o futuro de humanidade e da Igreja.
> O casal realiza-se ao moldar o futuro
> Ao gerar ou adotar abre possibilidade de existência a uma infinidade
de pessoas. É princípio de vida e de salvação para
muitos.
> Plasma o futuro, educando os filhos, transmitindo-lhes valores
> Evangeliza, criando condições para que a vida seja como Jesus
propôs; pela sua vivência familiar mostra que é possível
um futuro melhor
> O casal é testemunha do passado
> Recebe, guarda e passa adiante sua história familiar, com seus pontos
altos e baixos; transmite a “responsabilidade familiar” para com
a família presente e os antepassados
- O casamento não é projeto apenas para este tempo: tem reflexos
também na eternidade
• Por mais feliz e perfeito que seja o matrimônio agora, é
apenas prenúncio da vida futura, onde o amor conjugal e familiar terá
sua plena realização.
O amor no tempo e na carne aponta para a eternidade. Só da eternidade
do amor e da eterna convivência (em Deus) o casamento e a vida familiar
ganham seu pleno sentido.
• Casamento não até que a morte os separe, mas casamento
por amor e no amor que nem a morte nem as grandes águas podem apagar
(Ct 8,6).
• Amor conjugal parábola e prenúncio nupcial da plena realização
das núpcias com o Verbo Encarnado.
7. CONCLUSÃO
- A proposta é que o casal equipista viva seu casamento de maneira consciente, plena e encarnada nas pequenas-grandes realidades do dia a dia.