Para falar do serviço precisamos, antes de tudo, de
uma reflexão sobre a Palavra, porque o nosso servir tem sentido somente
se fundamentado sobre esta Palavra, somente se vivido no Espírito de
Sua Palavra; caso contrário, também o serviço se torna
um compromisso totalmente humano: digno de louvor se conseguirmos realizá-lo
sem ter nenhuma outra finalidade, livres de toda ambigüidade, menos válido
se, atrás da oferta de servir, há um sentimento, mais ou menos
dissimulado, de querer se exibir, de oportunidade a ser aproveitada, de autoritarismo.
O serviço no Espírito do Senhor ajuda a libertar-nos destas tentações
e permite que, através de nós, se cumpra a obra do Pai.
Várias são as referências evangélicas ao serviço,
algumas até muito claras e explícitas, mas nós fomos tocados
por um pequeno trecho do Evangelho de João que só aparentemente
parece não ter um significado específico em relação
ao tema que vamos desenvolver.
O Evangelho de João sobre o qual queremos refletir para compreendermos
o sentido profundo do serviço é este (Jo 21,20-22): “Voltando-se
Pedro, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava (...). Vendo-o,
Pedro perguntou a Jesus: ”Senhor, e este? Que será dele?”
Respondeu-lhe Jesus: “Que te importa se eu quero que ele fique até
que eu venha? Segue-me tu”.
Vamos procurar, antes de tudo, compreender a situação contextual:
Jesus, após ter ressuscitado, apareceu aos discípulos e agora,
após ter comido com eles, acaba de perguntar a Pedro por bem três
vezes se o amava e somente após as repetidas afirmações
do discípulo sobre a intensidade de seu amor por Ele, lhe confirma a
missão pastoral por excelência “Apascenta os meus cordeiros”.
É neste momento que Pedro, percebendo a presença no meio deles
do discípulo que Jesus amava, Lhe pergunta o que iria acontecer a este
discípulo e a resposta de Jesus, um tanto áspera e dura, nos deixa
um pouco perplexos: “Que te importa? Segue-me!”
No cenário, três personagens: Pedro, Jesus e o discípulo
que Ele amava: um diálogo breve, uma pergunta de Pedro que aos nossos
olhos não parece tão equivocada, uma resposta de Jesus que não
admite réplica, o silêncio total do outro discípulo que
parece viver esta situação como espectador enquanto está
no centro da atenção tanto de Pedro como de Jesus.
Pedro acabou de ser escolhido por Jesus, entre todos os apóstolos, para
apascentar os seus cordeiros, para ser pastor como Ele, para assumir o compromisso
mais importante que se pudesse imaginar e o clima deveria ser o mais descontraído
e festivo possível. No entanto, Pedro, já triste porque Jesus
lhe havia perguntado três vezes se O amava como se não confiasse
em seu amor, agora é também repreendido. Entre eles está
o discípulo que Jesus amava, porém nenhuma tarefa, nenhuma missão
lhe é confiada. Jesus não o escolheu para apascentar os seus cordeiros,
nem sequer lhe dirige a palavra e aquele permanece calado.
Jesus, pois, havia reencontrado os seus apóstolos e comido com os seus
amigos, porque então tanta aspereza ao responder? O diálogo é
uma fonte de incompreensão, o clima é tenso. Assim como acontece
muitas vezes conosco quando sentimentos diferentes não permitem um encontro
sereno.
“Cheguei
em casa com vontade de vê-la, é um desejo novo que torna novos
os gestos de todos os dias. Enquanto estava no carro pensava na possibilidade
de passarmos uma noite tranqüila juntos...se os filhos saíram atrás
de seus compromissos talvez possamos ter um jantar rápido e depois sentar
na sala para bater papo; se o telefone não tocar muito teremos a oportunidade
de retomar e aprofundar aquela conversa deixada pela metade, e se houver um
doce na geladeira poderemos saboreá-lo com o televisor desligado, curtindo
a nossa presença recíproca...Se, se...quantos “ses”...
mas não tinha previsto o que depois viria a ser a realidade: encontre-ai
nervosa e irritada, talvez um cansaço maior ou algo que não deu
certo durante o dia criou em você um estado de espírito agitado
e pouco acolhedor; o clima dentro de casa não está como eu tinha
imaginado...você está sem vontade de falar. Jantamos em silêncio
e ligamos a televisão para criar uma voz que nos faça companhia,
aquela conversa ficou pela metade e não foi retomada, e se o telefone
não toca você aproveita para dar uns telefonemas que deixou de
dar. Que pena esta falta de sintonia de sentimentos que torna banal uma noite
que poderia ter nos oferecido algo mais em amizade, em partilha, em profundidade!
E como isto acontece tão facilmente! Quantas vezes nos colocamos um na
frente do outro ou juntos diante dos outros com atitude festiva e nos defrontamos,
porém, com uma realidade diferente, ficando decepcionados e perplexos:
mas como, eu que tinha pensado nisto e naquilo.em dizer aquelas palavras, em
propor aquelas iniciativas...tudo na certeza de fazer a melhor coisa...que ingratidão,
que decepção! Esta noite, porém, entendo o seu cansaço,
aceito a sua dureza porque o meu te querer bem contém também as
suas fraquezas e permaneço ao seu lado...como Pedro que aceita a repreensão
de Jesus, como o discípulo amado por Cristo que em silêncio continua
perto dEle, como o próprio Jesus, talvez irritado porque os discípulos
continuam a não entender e, apesar disso, confia a um deles a missão
maior”.
O serviço
é, muitas vezes, motivo de incompreensão: às vezes gastamos
o nosso tempo e as nossas energias para planejar coisas que vamos oferecer com
o entusiasmo e com a certeza de que a resposta daqueles que acolherão
as nossas propostas nos recompensará de todo o trabalho...Mas isto nem
sempre acontece, aliás, às vezes as respostas são frias,
indiferentes, tendem a adiar e a derrubar a iniciativa e somos tentados a deixar
tudo de lado, pois não vale a pena trabalhar para os outros, já
que depois ninguém vem ao teu encontro e te conforta.
Porém, não é este o autêntico espírito do
serviço que, pelo contrário, deve ser acompanhado pela consciência
de que naquele momento somos nós que temos que compreender, que temos
que desdramatizar e procurar entender as verdadeiras necessidades e os reais
estados de espírito dos que estão perto de nós, que temos
que costurar pequenos e grandes rasgos que ocorreram no âmbito de uma
comunicação que não deu certo. A primeira necessidade do
serviço é justamente ter consciência de que não estamos
servindo a nós mesmos, à nossa maneira de ser, aos nossos projetos,
mas que fomos chamados para servir aos outros e que é para eles que deve
ser direcionado o nosso compromisso de compreensão e de ação.
Entender e compreender são verbos que nos empurram para fora de nós
mesmos e este deve ser o nosso primeiro objetivo, esforçar-nos sempre
para entender, mesmo quando as coisas nos parecem difíceis ou, talvez,
também duvidar se, pelo contrário, tudo parece muito óbvio,
entender o que há atrás de uma resposta, de uma atitude, entender
justamente o que estamos fazendo agora juntos e comparar com as três personagens
deste quadro evangélico para encontrar a chave de leitura daquilo que
se apresenta pouco claro para nós, para buscar o sentido daquilo que
subjetivamente resulta, às vezes, desprovido de lógica ou fonte
de perplexidade.
Procuremos entender melhor Pedro: ele está triste porque Jesus por três
vezes lhe fez a mesma pergunta: você me ama? E ele não sabe mais
o que dizer ou fazer para convencer o seu Senhor...Mas Pedro talvez tenha esquecido
que, não faz muito tempo, ele por três vezes renegou o amor por
Jesus, negando até mesmo conhecê-Lo.
Ou, talvez, Pedro lembra-se muito bem da sua traição e, de fato,
a sua atitude não demonstra mais a segurança e a presunção
de quando, depois da última ceia, havia pedido com insistência:
“Senhor, porque não posso seguir-Te agora? Darei minha vida por
Ti!” Mas depois O traiu e O renegou três vezes. Agora aquela segurança
deu lugar à tristeza e a uma conduta menos confiante, pois houve, no
meio, o reconhecimento da sua fraqueza; naquela ocasião o medo lhe havia
feito esquecer o amor e agora não sabe mais como reconquistar a confiança
do seu Deus.
Não temos dúvidas a respeito da sinceridade do amor de Pedro,
assim como acreditamos em sua tristeza ao lembrar a traição; ainda
assim Pedro, que segue Jesus um pouco desanimado e um pouco perplexo, não
pode deixar de Lhe perguntar ainda alguma coisa, porém “não”
pede maiores explicações sobre a missão que acabou de lhe
ser confiada, nem exprime um agradecimento por tanta confiança recebida,
mas pergunta o que vai ser do discípulo que Jesus amava e que está
com eles, provocando assim a resposta de Jesus que todos nós já
conhecemos.
O que levou Pedro a formular aquela pergunta? Talvez um sentimento profundo
de ciúme: para aquele que você ama e que nunca te traiu o que você
lhe reserva? Qual será a missão dele?
Ou talvez o medo de ter que enfrentar sozinho um serviço tão trabalhoso
e o conseqüente desejo de ter alguém que possa ajuda-lo, que possa
dividir a responsabilidade que você recebeu.
Ou, ainda, podemos pensar num sentimento de preocupação por parte
de Pedro pelo seu amigo, por aquele discípulo que Jesus amava e que não
havia recebido nenhuma missão, um sentimento de cuidado em favor do outro...”Senhor,
se Você não pensou nele, eu vou pensar!”
Finalmente podemos interpretar a pergunta de Pedro como uma tentação
de querer saber mais, de querer de alguma forma controlar o que estava acontecendo,
e querer tomar conta de situação: “eu sei o que me foi pedido,
porém quero saber também do outro.”
Nenhuma das quatro hipóteses encontra, no entanto, o favor de Jesus que
responde a Pedro com bastante dureza; e se fosse assim também conosco
quando nos é solicitado um compromisso? Não poderíamos
ter a mesma tentação de Pedro procurando esquivar-nos de uma responsabilidade
direta, de encontrarmos alguém com quem dividir pela metade o inevitável
trabalho, ou a mesma tentação de desejar saber aquilo que na realidade
não nos diz respeito pessoalmente? E não poderíamos, então,
receber a mesma resposta de Jesus:”que te importa?”
“Você voltou para casa contrariada ao final de uma tarde que você passou numa casa de primeira acolhida para meninas que não têm para onde ir, onde você exerce o voluntariado. Você me conta que teve uma discussão acalorada com a responsável. Fala-me a respeito de uma certa moça que você está acompanhando de perto: Yoceline tem 19 anos,é uma menina da América do Sul que a Polícia deteve assim que desceu do avião porque transportava uma grande quantidade de droga; foi imediatamente levada para a cadeia mas ali sofreu a triste experiência da violência e agora está aqui nesta casa de acolhida, transtornada, amedrontada, ameaçada pelo seus “protetores”, longe de qualquer contato familiar, traída por sua mãe que a envolveu nesta história e depois, por medo, disse que não a conhecia e a abandonou a seu destino...Percebo que você tem um carinho particular por esta menina porque, apesar de suas vicissitudes, na realidade lhe parece frágil, sozinha, quase uma criança, e você faz um paralelo com tudo aquilo que têm de segurança, de proteção, de carinho, os nossos filhos que têm a mesma idade dela. Você estabeleceu com ela um relacionamento diferente com relação às outras meninas, tem falado muito com ela e talvez a conheça melhor, traçou para ela uns planos que, porém, não correspondem aos da responsável da casa. Diz-me que fazer aquilo que esta última lhe pediu parece inoportuno e, sobretudo inútil, sendo que, para você, poder-se-ia fazer mais e melhor. Está com muita raiva pelo conflito que você viveu e está me dizendo que talvez seja inútil desperdiçar o tempo assim...Eu não sei onde está a razão, ainda que espontaneamente sinto vontade de ficar do seu lado, mas peço para acalmar-se, e refletir, não tomar decisões que levariam a rupturas. É fácil para você fazer projetos, tomar iniciativas, tudo lhe parece possível, viável, realizável...às vezes não entende que isso pode também significar substituir-se a outra pessoa que tem seus projetos, suas razões, suas iniciativas e suas responsabilidades. Talvez Yoceline neste momento não precise das coisas que você lhe propõe, talvez precise apenas de uma pessoa que esteja junto dela, que a acompanhe nos seus dias enquanto aguarda o processo, que compartilhe a sua solidão, talvez necessite de silêncio e não de palavras, de uma parada e não de ação, talvez isto signifique fazer aquilo que a responsável lhe pediu: passar o tempo com ela assistindo as novelas que ela gosta muito, ainda que a você pareça uma coisa inútil, mesmo que você, quando está na escola, procure fazer compreender aos seus alunos como este seja um desperdício de tempo, mesmo que para você, eu sei, seja enfadonho passar tantas horas em frente à televisão...Mas não faça como Pedro que quer ver mais longe, que quer se preocupar e se ocupar com outras coisas e ir além..que quer quase se substituir ao seu Mestre para fazer planos e programas... talvez o discípulo que segue calado seja uma segurança mais forte para Jesus e um exemplo para você...”
Existe depois
esta figura emblemática que, porém, não tem nome, uma figura
real mas indefinida, parece ser o centro da questão entre Pedro e Jesus
e, no entanto, fica em silêncio: é o discípulo que Jesus
amava, é aquele que, sem identidade, está presente também
em outros episódios evangélicos. Sem nome está com Jesus
na última ceia (Jo 13,23-24) e senta-se à mesa ao seu lado; sem
nome está ainda no palácio do sumo sacerdote (Jo 18,15-16) pouco
antes da traição de Pedro; sem nome o encontramos finalmente aos
pés da cruz (Jo 19,25-27) perto da mãe de Jesus... Sem nome, mas
sempre presente ao Seu lado em espírito de grande amor, de grande amizade,
de grande disponibilidade. Este homem nunca foi chamado pelo nome, todos os
estudiosos bíblicos estão de acordo em identificá-lo como
João mas, nos Evangelhos, é sempre e somente definido como “o
discípulo que Jesus amava”: esta não-definição
é somente um acaso ou devemos pensar numa razão precisa, num motivo
que deve nos fazer compreender algo mais..Na realidade, entre todos os apóstolos
é ele o verdadeiro discípulo de Jesus: segue-o sem hesitação
até o fim, até mesmo perante o sumo sacerdote, até os pés
da cruz, é o único que não trai, que não abandona;
é ele o verdadeiro crente que segue e ama o Cristo sem se perguntar nada,
é ele que encarna a fidelidade..
Talvez seja sem nome porque é o símbolo de todos aqueles que fielmente
amam e seguem Jesus, é sem nome porque é cada um de nós
quando dizemos “sim” sem titubear, sem nos fazer muitas perguntas,
sem colocar à frente muitos “ses”...é cada um de nós
quando dizemos sim porque levados pelo amor por Cristo que passa através
do amor pelos homens.
O Evangelho destaca nitidamente também um outro aspecto não menos
significativo: chama este homem “o discípulo que Jesus amava”.
Não teria sido mais fácil o contrário e dizer dele que
era o discípulo que amava Jesus? Por que esta inversão de termos?
Por que destacar o amor de Jesus e não o contrário? Provavelmente
porque, uma vez mais, seja claro para nós que tudo aquilo que constitui
a nossa vida, os pensamentos, as escolhas, os gestos, as palavras.., encontram
a sua plenitude, assumem o seu significado somente porque estão já
contidas no amor que Deus tem por cada um de nós.
Este discípulo segue Jesus, vê o que está acontecendo, escutou
o que foi dito a Pedro, mas não pede explicações, não
pede nada para si, não se afasta e, plenamente confiante no amor de Jesus,
em silêncio, continua ao seu lado...
Estão tão livres de todo condicionamento os nossos “sim”?
de todo preconceito, de toda reserva? E não somente os nossos “sim”
ao serviço mas também os nossos sim ao amor, os nossos sim ao
compromisso, os nossos sim à vida..
É verdade, às vezes a vida nos coloca diante de pequenos ou grandes
pedidos que nos deixam em crise, nos desorientam....gostaríamos de evitar
escolher, pois, toda vez que saímos de nossa rotina cotidiana ficamos
na defensiva e temos medo do desconhecido.. O serviço, pequeno ou grande,
que nos é solicitado talvez adquira esta forma porque estamos cientes
de que, se quisermos viver seriamente e como adultos esta experiência,
envolvendo-nos e gastando o nosso tempo e as nossas energias com ele, inevitavelmente
temos que modificar alguma coisa na nossa maneira de viver o cotidiano, teremos
um pouco menos de tempo para nós, teremos noites e domingos menos livres,
teremos menos.., teremos mais..
Na realidade, o que se esconde atrás de frases rituais como “vamos
ser capazes?” “mas não podem pedir para outra pessoa?”
“mas agora não é o momento” é, talvez, apenas
o medo de crescer um pouco mais porque afinal sabemos que, após ter dito
sim e após ter feito o que nos foi solicitado, o balanço será
sempre positivo: teremos aprendido mais a ouvir, a compreender, a colocar-nos
no lugar dos outros, a pensar nas suas necessidades, em ir ao encontro das suas
expectativas.
Com certeza o risco é que os nossos serviços tenham valias distorcidas,
muito compreensíveis no aspecto humano, mas que não trarão
nenhum resultado para nós.
Há o risco de correr atrás de um ideal de serviço que não
leva em conta a realidade das coisas e das pessoas, se planejam e se organizam
coisas muito bonitas mas, talvez, afastadas da expectativa e da necessidade
daqueles para os quais nos tornamos disponíveis: estamos perseguindo
um ideal de serviço ou, quem sabe, talvez o “nosso” ideal?
Há o risco de um perfeccionismo que exige que cumpramos sempre plenamente
o que o serviço nos pede, trabalhamos ao máximo porém exigimos
o máximo, sem deixar espaço para a compreensão dos nossos
limites e daqueles dos outros e para.a partilha...o nosso “eu” é
tão desejoso de gratificação pessoal que não tem
olhos, ouvidos, nem cabeça para esquecer de si e colocar-se realmente
a serviço de?
Há ainda o risco de viver o serviço como uma oferta total do próprio
tempo e do próprio coração até ao ponto de substituir-se
ao tempo e ao coração dos outros...: você não precisa
pensar em nada, não se preocupe com isso, não faça nada,
deixa que eu faço tudo, deixa que eu cuido disso...vivo eu em seu lugar
e penso por você, decido por você, faço por você..
Pedro e o discípulo que Jesus amava, Pedro com o seu perguntar, com a
sua ansiedade de saber, Pedro com o seu medo..,o outro com o seu silêncio,
com a sua presença constante, com o seu confiar no amigo e mestre Jesus:
quem somos nós, Pedro ou o outro?
Nós também,
como Pedro, tivemos medo quando fomos interpelados e solicitados a dizer um
“sim” que sabíamos iria modificar, um pouco ou muito, a nossa
vida.
Temos medo: hoje demos entrada no processo de adoção; desejamos
imensamente ter um filho, mas para onde nos levará esta escolha? Quem
iremos amar? Como irá mudar a nossa vida? Seremos reconhecidos e amados
como pais? O processo burocrático é longo e muitas vezes parece
existir só para nos desencorajar, porém nós não
temos medo da burocracia, temos medo talvez de uma escolha tão forte
e feita no escuro, apenas em nome do amor...se um filho nasce de você
um pouco você o conhece, tem os teus olhos, tem o teu caráter,
tem o teu modo de fazer e de dizer...mas um filho adotivo tem somente as feições
do amor e em nome destas pede para ser escolhido, querido, amado.
Temos medo também agora que Giuliano e Gabriele têm quase trinta
anos; depois que tantos dias, tantas horas, tantos anos, tanta vida nos uniram
inseparavelmente..temos medo também agora: temos conseguido amá-los
plenamente? Conseguimos fazer com que se sentissem amados? Conseguimos fazê-los
compreender que a nossa escolha por eles passou também através
da confiança em Deus Pai? Temos medo porque às vezes certos gestos,
certas escolhas, certas incompreensões entre nós traem as nossas
expectativas, obscurecem os nossos projetos, anulam os nossos balanços
de vida..Como Pedro gostaríamos de perguntar “o que será
dele? o que será deles? nós os amamos e nos preocupamos com eles,
dize-nos Senhor, o que reservou para eles”. Mas depois, como o discípulo
que Jesus amava procuramos simplesmente colocar em suas mãos a nossa
vida e a vida deles, procuramos não pedir muito, mas ficar amarrados
nEle procurando em Sua palavra a resposta às nossas expectativas e a
confiança para as nossas esperanças.
Temos medo: nos solicitaram o serviço de responsáveis pelas ENS;
este Movimento tem acompanhado a nossa vida de casal desde cedo, foi o fundamento
silencioso e forte de todas as nossas escolhas, amamos todas as pessoas que
dentro do Movimento, e graças a ele, conhecemos porque nos fizeram crescer
na fé e na humanidade, sentimos que pelo tanto que recebemos muito pouco
conseguiremos restituir...temos medo de dizer “sim” e como Pedro
procuramos alguém com quem compartilhar o peso da escolha, como Pedro
queremos saber algo mais, interrogamos os amigos mais íntimos, procuramos
conforto para uma decisão que sabemos que vai incidir profundamente no
nosso cotidiano...temos medo mas depois alguém nos diz que nas decisões
mais importantes é preciso deixar-se conduzir pelo Espírito para
alçar vôos altos, alguém nos diz que a coisa mais justa
é fazer como o discípulo que Jesus amava: ficar em silêncio
e aprender a escutar, ficar em silêncio e exercitar-se sempre mais a amar...
A última
figura a ser olhada mais de perto é justamente a de Jesus: um Jesus diferente
de como o conhecemos em tantos episódios evangélicos, um Jesus
que nos deixa desorientados, é duro com Pedro, não dirige a palavra
ao amigo que amava.
Pergunta três vezes a Pedro se O ama: por quê? Como interpretar
este tríplice pedido?
Talvez Jesus queira mesmo que por três vezes seja reafirmado o amor de
Pedro antes de confiar-lhe o serviço maior, quase para anular desta forma
as três vezes em que Pedro O renegou? Seria, neste caso, uma simples reintegração
de Pedro no apostolado, um restituir-lhe a confiança que Pedro tinha
perdido ao sucumbir pelo medo. Não nos parece que seja só isso.
O perdão de Deus é imediato se estamos cientes do mal cometido.
Talvez Jesus quis intencionalmente e, com força, destacar o contraste
entre a fraqueza de Pedro, manifestada com a sua traição, e a
missão que lhe é confiada sustentada pelo amor. Pedro se torna
pastor por graça e não por merecimento, a sua solidez lhe vem
unicamente do Senhor, o que lhe é pedido é uma postura de humildade
e de fé. Pedro, nesta altura, está ciente e, de fato, em sua resposta
não há mais a segurança, a presunção de quando
proclamava amar o seu Senhor mais do que os outros apóstolos, de quando
desembainhava a espada para defender o Mestre, de quando afirmava “Darei
a minha vida por Ti (Jo 13,37)”.
A pergunta repetida três vezes “você me ama?” feita
por Jesus a Pedro tem, portanto, uma ligação estrita com o trabalho
seguinte que põe Pedro numa dimensão de serviço total,
indica-nos de fato as condições indispensáveis para executar
qualquer serviço.
- o amor por Cristo e pelos homens
- o desinteresse e a plena disponibilidade de si para os outros
- o deixar lugar para a clarividência do amor e não para a tentação
de afirmação de si e de seus projetos.
Isto é quanto cada um de nós deveria se perguntar ao assumir um
serviço pequeno ou grande que nos foi pedido; esta pergunta de Jesus,
repetida três vezes deveria ressoar em nossos ouvidos em lugar de tantas
outras: “você me ama?”
A dimensão do amor muda, de fato, a perspectiva de toda reflexão:
por que se perguntar, portanto, “tenho tempo para o que me é solicitado?”
ou “estarei à altura das expectativas?” ou, ainda, “como
dar um destaque maior àquilo que estou para fazer?” Não
são perguntas totalmente equivocadas, aliás é justo e correto
interrogar-se primeiro e assumir depois todo serviço com sentido de responsabilidade,
mas aprendamos todos a nos fazer a pergunta principal, aquela que Jesus dirigiu
a Pedro porque é aquela resposta que muda o sentido da escolha e o comportamento
do agir: a disponibilidade em vez da afirmativa, a generosidade contra o egoísmo,
o abrir espaço em vez de ocupar espaço.
Em outras ocasiões tivemos oportunidade de refletir sobre o significado
etimológico da palavra serviço e talvez valha a pena recordá-lo
mais uma vez, porque nos parece que vem completar bem a reflexão que
estamos levando adiante.
Nós, em geral, gostamos de conhecer a origem das coisas, mesmo que se
trate simplesmente da origem de uma palavra, porque achamos que justamente na
origem, na raiz de todas as coisas, encontramos o significado mais profundo,
a própria vida, o sentido pelo qual aquela coisa, ou aquela palavra nasceu.
A palavra serviço é uma tradução literal da palavra
latina servitium que tem sua raiz em servus.
Todos sabemos que a palavra servo teve durante muito tempo o significado de
escravo, mas este foi apenas um valor dado posteriormente à palavra para
situações histórico-sociais; não é, portanto,
o real significado da palavra servus e, com certeza, não é isso
que queremos ser quando escolhemos fazer o serviço...
Esta palavra servus tem, na realidade, uma exata correspondência formal
com a palavra persa haurvo que tem o significado de “guardião”
(com certeza referindo-se ao gado ou à aldeia).
Por sua vez a raiz da palavra haurvo é formada pela base swer (presente
de forma diferente na língua grega e na língua latina) que significa
exatamente observo.
Reconstituímos, assim, o nascimento desta palavra que se nos revela numa
dimensão totalmente oposta àquela que estamos acostumados a pensar
e a conhecer: servo e serviço não como escravo e submissão
mas como observador e guardião.
Se nos for pedido para fazer um serviço, nos será pedido ser observadores
e guardiões, observadores e vigias.
Observar e vigiar: há algo melhor do que estes dois verbos para entender
o significado e o valor do serviço?
Observar e vigiar implicam duas diferentes atitudes, duas dimensões diferentes:
a da subjetividade
e
a da objetividade
que devem ser concretizadas simultaneamente mesmo mantendo a sua especificidade.
Observar significa, antes de tudo, prestar atenção ao que acontece
ao redor e, sobretudo, em quem está ao nosso redor.
As coisas e, ainda mais, as pessoas para as quais nos tornamos disponíveis
ao aceitar o serviço, exigem toda a nossa atenção e a nossa
verdadeira disponibilidade para serem entendidas e ajudadas a se realizarem
da melhor forma possível.
O serviço é um tempo de observação para entender
as exigências e os problemas, para intervir quando for possível,
para estar presentes e isso é possível somente se tornar-se também
um tempo no espaço dos outros, isto é, restringindo o espaço
dos nossos problemas e das nossas exigências para dar maior espaço
aos outros.
Observar não é apenas olhar: às vezes olhar é simplesmente
deixar nossos olhos deslizarem pelas coisas e pelas pessoas sem realmente vê-las,
sem penetrá-las, sem incorporá-las dentro do nosso espaço
de vida.
Estranhamente, observar exige também o silêncio, um silêncio
que é, naturalmente, sobretudo um silêncio interior: se prestarmos
ouvidos às nossas exigências, se falarmos continuamente conosco
mesmo para resolver este ou aquele problema, se, enfim, continuamos a ocupar-nos
de nós como podemos realmente abrir espaço para o outro? como
podemos observá-lo em suas necessidades se o espaço está
todo ocupado por nós mesmos?
Ser guardiões, no sentido de vigiar, implica um compromisso que é
ao mesmo tempo de responsabilidade e de afetividade.
Podemos ser guardiões pelo sentido do dever e podemos também executar
o serviço de guardiões com frieza, sem uma real co-participação
afetiva e amorosa.
Mas ser guardiões é uma outra coisa, implica ternura, co-participação,
quase proteção para aquilo que nos foi confiado. Implica amor
para os homens.
Cristo se apresentou como guardião ou como vigia no papel de pastor de
seus cordeiros?
E se Caim tivesse se sentido vigia ao invés de guardião de seu
irmão?.
E se nos sentíssemos também vigias dos outros durante o tempo
de nosso serviço não mudariam, talvez, as nossas atitudes? Não
nos ocuparíamos mais dos outros do que de nós mesmos? Não
procuraríamos encontrar tempo para eles? Não nos sentiríamos
envolvidos em tudo o que lhes acontece?
Fazer o serviço é observar e vigiar os outros, fazer o serviço
é amar os outros.
Há uma outra questão que surge espontânea ao refletirmos
sobre este quadro evangélico e, em particular, sobre a atitude de Jesus:
por que, após ter feito entender claramente a Pedro quão errada
fora a sua pergunta e quão longe estivera o seu comportamento interior
daquilo lhe era pedido, e após ter, de alguma forma, destacado o valor
do outro discípulo, aquele que o seguia em silêncio, aquele que
Ele amava, por que, depois de tudo isso Jesus confia justamente a Pedro e não
ao outro a tarefa de apascentar, de alimentar, de amar as suas ovelhas?
Nós queremos crer que esta escolha, aparentemente tão contraditória,
tenha um único significado: Pedro, que viveu o medo, que se tornou ciente
de seu limite, que chorou após a sua traição, que afirmou
seu amor primeiro com atrevimento e depois com grande humildade, Pedro pode
amar melhor do que os outros porque pode compreender os temores e as infidelidades
dos outros, as fraquezas e as possibilidades, as dores e os entusiasmos, os
cansaços e os sonhos.
Jesus escolhe Pedro para que cada um de nós possa reencontrar-se neste
homem tão forte e tão frágil, tão crente e tão
infiel, tão idealista e tão simples; Jesus escolhe Pedro porque
a ele, assim com a nós, é solicitado apenas amar os outros confiando
não nas nossas capacidades, mas naquilo que o Senhor saberá fazer
através de nós se nos tornarmos disponíveis a abrir-nos
plenamente a Ele.
A escolha de Pedro então não nos desorienta, mas nos tranqüiliza,
não nos amedronta mas nos dá confiança, não nos
segura mas nos dá impulso e esperança.
“Conhecemos
a desorientação que nos envolve quando aquele gesto, aquela palavra,
aquela escolha é um faltar ao compromisso de amor profundo que nos prometemos.
Não valem as razões e os direitos se a tristeza desce no coração
e o céu perde a sua cor quando a ruptura, ainda que momentânea,
ocorre em nosso relacionamento...
...Hoje à noite vamos dormir sem ter reencontrado a harmonia entre nós,
a discussão de hoje foi forte, áspera, os tons eram duros, talvez
exagerados, e inevitavelmente nos levava cada vez mais a posições
contrastantes, de forma que, ao invés de procurar as motivações
para criar um novo encontro, cada um de nós procurou apenas as razões
para reforçar as suas teses. Mas agora não é tão
importante a amargura pelas coisas que nos dissemos quanto este fechar o dia
de forma tão negativa, este ser incapazes de encontrar um jeito de dizer-nos
“boa noite”, este permanecer sozinhos na própria trincheira,
este ser infiéis à promessa que havíamos feito um ao outro
“qualquer que seja a discussão durante o dia, nunca devemos ir
dormir se não tivermos a paz no coração”. E agora,
no entanto, somos apenas capazes de adiar e esperar com confiança que
o novo dia traga uma renovada força de reencontrar-nos.
Conhecemos a estranha
sensação que você sente quando sabe que faltamos ao compromisso
de amizade ou de serviço que tínhamos assumido...o cansaço
de hoje, a impaciência ou a intolerância prevaleceram e não
escutamos, não partilhamos, não demonstramos disponibilidade...passou
o nosso amigo que está se separando, tem vontade de falar, falar ainda
de sua situação como já vem fazendo há semanas mas
nós, esta noite, não estávamos com vontade de escutá-lo
e com uma desculpa adiamos o encontro, lhe negamos a nossa disponibilidade,
lhe negamos neste momento a nossa amizade e agora porém percebemos ter
faltado com ele mas também conosco, com o nosso compromisso de ser uma
casa aberta, de estar sempre prontos a acolher e a partilhar...agora é
isto que nos magoa...porque a traição, ainda que pequena, é
o bloqueio do crescimento humano e espiritual”.
A chamada de Pedro não é apenas um fato reservado, assim como
nada no Evangelho é totalmente pessoal, senão seria tão
somente um belo conto para se ler; todos, de fato, ao longo de nossa vida somos
chamados pelo Senhor a realizar pequenas ou grandes escolhas, algumas marcam
de modo significativo a nossa existência, outras são momentâneas,
contingentes e ligadas a situações específicas, como pode
ser a solicitação e a escolha de um serviço, mas precisamos
estar cientes disto: a chamada fundamental é a de transmitir “vida”.
Nós não estamos no mundo por nós mesmos e não estamos
para “fazer” mas para “tornar-nos”, não somos
homens viventes até conseguirmos oferecer nós mesmos aos outros,
até colocarmo-nos a serviço da vida dos outros. No momento em
que pensamos em reter para nós o que recebemos, naquele momento deixamos
de tornar-nos porque interrompemos o processo dinâmico de receber e dar,
de progredir, de crescer para alcançar a plenitude de nossa vida. A condição
do serviço, portanto, em sentido amplo, é uma condição
irrenunciável para todos os homens e a qualquer momento, pois se trata
de cumprir as diversas escolhas para dar forma concreta a essa condição.
Ao mesmo tempo, devemos ter a consciência dos nossos limites e de nossas
inaptidões porque é justamente esta consciência que, sem
formas tolas de nos passar por vítimas, nos empurra cada vez mais a “tornar-nos”,
a procurar e a fundamentar o nosso atuar na Palavra: é pela Sua graça
que nós mudamos, crescemos, tornamo-nos, vivemos. Pela Sua graça
e pela nossa disponibilidade em nos tornarmos transmissores de vida.
Se não houvesse esta consciência de nossa imperfeição,
seríamos, certamente, tentados a confiar não em Deus, mas nas
nossas capacidades, na nossa inteligência, no nosso saber, seríamos
tentados a sermos nós os criadores da Vida, enquanto que esta somente
a podemos conseguir momento a momento e transmiti-la aos outros, tornando-nos
transparentes à ação de Deus que atua em nós.
É possível, no entanto, que uma atitude interior não correta
torne menos autêntico o nosso espírito de serviço, dando
ao nosso “fazer para os outros” um desejo mais profundo, ainda que
escondido, de “fazer para nós”; eis porque se torna fundamental
que, sem hipocrisias, dirijamos primeiro para nós mesmos as perguntas
corretas e, sobretudo, sem hipocrisias, sejamos capazes de dar as respostas
corretas.
Talvez então consigamos compreender a manifestação decisiva
de Jesus: “que importa a você? Segue-me!”.
A chamada é, de qualquer forma, individual, dirigida a cada um de nós
e ao nosso casal porque eu, nós, sabemos se eu, se nós, podemos
dar a resposta autêntica que os outros esperam, mas que Jesus primeiro
espera de nós “você me ama?” O serviço não
é apenas um ato de doação que, ainda que sincero, deve
ser sempre sustentado pelo amor por Cristo e pelos homens e, de qualquer maneira,
não é tampouco uma opção possível, porque
somente colocando-nos em comunhão com os outros, nas infinitas possibilidades
que nos são dadas, nós podemos tornar-nos e, portanto, viver.
O serviço é uma realidade contínua do nosso viver, que
assume em algumas situações conotações e formas
particulares, mas é uma condição “necessária”
para se conseguir a plenitude da nossa vida, por isso Jesus parece tão
peremptório e imperativo: “Segue-me!”
Quem se coloca a serviço, torna-se responsável por alguém
que lhe é confiado e também aqui nos é de ajuda o conhecimento
etimológico da palavra para melhor entender o valor e o significado profundo
da mesma.
Responsável é um adjetivo que provém de um suposto verbo
latim “responsare”, que por sua vez nasce do substantivo responsus
que é uma forma substantivada do verbo respondere (responder).
Este termo, responder, chegou até nós de forma mais clara e como
tal foi assimilado, mas na raiz desta palavra encontramos dois elementos: re—sponsus.
Nós, particularmente, achamos muito bonito que na palavra responsabilidade
esteja contida a menção ao esposo (e, naturalmente, à esposa):
nada de mais específico do que lembrar o nosso compromisso de esposos
ao assumir as nossas responsabilidades.
E ainda: sponsus é o substantivo de spondere que significa prometer,
que, por sua vez, vem de um verbo usado na área hitita, spendo, que significa
libar. Libar significa, precisamente, “despejar gota a gota” e,
então, assim como a promessa dos esposos no matrimônio é
uma promessa que não acaba numa única libação, mas
é despejada e se espalha reciprocamente gota a gota, dias após
dia, da mesma forma quem é responsável não pode terminar
o seu compromisso de uma só vez ou de forma alguma ou de forma descontínua,
deve, pelo contrário despejar gota a gota o seu compromisso, mantendo
constante no tempo a sua atenção e a sua disponibilidade de forma
que o outro sinta todo o valor de um compromisso fundamentado no nosso amor
por Cristo e pelos irmãos, mas também na garantia do amor de Cristo
para cada um de nós.
O amor é o fundamento de todo relacionamento, de toda construção
possível, de todo concreto porvir.
Cristo pede a Pedro para apascentar as suas ovelhas mas antes disso lhe pede
para fundamentar o seu serviço no amor: “Pedro, você me ama?
Então apascenta minhas ovelhas”.
Também a raiz etimológica do verbo apascentar confirma este nosso
entendimento; de fato contém a raiz “Pa” que significa “nutrir”
mas a que alimento, a que nutrição podia se referir o Senhor ao
pedir a Pedro para apascentar as suas ovelhas se não à do amor?
Amar é, portanto, tornar-se disponível a servir o outro, servir
é tornar-se vigia e responsável pelo bem alheio.
Você dorme
e eu estou aqui ocupado com esta palestra que está me dando muito trabalho.
É tarde, tudo está envolvido no silêncio da noite e estar
ainda de pé me faz realmente sentir vigia e não guardião.
Vigia de seu sono que esconde o cansaço dos anos que passam e dos dias
de trabalho que em certas épocas são muitos intensos; vigia do
sono dos garotos aos quais procuramos garantir a segurança do crescimento
num ambiente afetivo forte e significativo e que agora, tateando, muitas vezes
indo em direção de objetivos inúteis ou errados, percorrem
o seu caminho de vida, talvez já sem precisar de nós; vigia desta
casa que sentimos tão nossa porque os objetos, os móveis , os
quadros, os livros, nos trazem a segurança das lembranças que
evocam, nos oferecem a companhia daquilo que é conhecido e amado, nos
falam daqueles aos quais estamos ligados, pessoas amigas que moram nesta nossa
casa através daquilo que foi vivido junto...Vigia e não guardião,
porque é com ternura que protejo o seu sono e o deles, tomando cuidado
para que os meus movimentos não façam barulho, que a luz da escrivaninha
não perturbe os seus olhos. Vigia como você o foi para mim caminhando
ao meu lado durante todos estes anos, compartilhando a minha juventude, sustentando
a minha maturidade; vigia dos meus ideais juvenis que muitas vezes desembocavam
na fantasia, vigia dos sonhos que você compartilhou e para os quais você
lutou ao meu lado quando assumiam os contornos da utopia; vigia das minhas dores
às quais ofereceu a proteção de um gesto, de um sorriso,
de um abraço; vigia das minhas fraquezas, dos meus limites e dos meus
erros aos quais você deu o apoio da sua compreensão e da sua acolhida;
vigia das minhas esperanças, daquelas esperanças que também
graças a você se transformaram em realidade e daquelas que, ao
longo dos anos, perderam a sua força e o seu brilho transformando-se
em nostalgias...
Vigias, eu e você, um para o outro, vigias do nosso amor que sempre procuramos
que fosse forte e vital, desde quando, no início da nossa história,
ninguém apostava dois tostões no nosso futuro, e depois sempre,
mesmo quando as tempestades pareciam querer varrer tudo ou quando parecia que
a tentação de nos deixar levar pela rotina dos dias que às
vezes passavam muito iguais, pudesse nos arrastar para uma cinzenta rotina de
viver juntos, e ainda hoje que somos rebeldes e indômitos apesar da idade
mais avançada, continuamos a discutir por pequenas bobagens, sempre prontos
a destacar as nossas individualidades.
Vigias eu e você, um para o outro, dos nossos dias, dos nossos anos, da
nossa vida que ainda hoje sentimos tão bela e cheia de grandes coisas;
vigias, juntos, da nossa realidade feita pelos filhos que tão teimosamente
quisemos, dos familiares e dos amigos aos quais, com pequenos balbucios de vida,
procuramos oferecer toda a atenção e a ternura que fomos capazes
de aprender em nossa vida a dois. Vigias de nossa fé que procuramos fazer
crescer no tempo, renunciando às receitas pré-concebidas e empenhando-nos
numa busca de Deus que muitas vezes nos trouxe dúvidas e questionamentos,
mas também impulsos e certezas, nunca satisfeitos com aquilo que alcançamos,
mas cada vez mais cientes que Deus é o além e nos chama sempre
para encontrá-lo mais à frente de onde nós estamos”.
O amor, qualquer que seja a sua forma e o seu rosto, conjugal, filial, de amizade,
alimenta-se de tudo o que é compartilhado e se nutre de sua própria
capacidade de regenerar-se e de ser oferecido e transmitido aos outros. Também
o servir é uma dimensão do amor e como tal deve ser nutrido, alimentado
e protegido, também quando servimos devemos ser vigias para poder apascentar,
nutrir e alimentar todos aqueles dos quais nos aproximamos.
“Voltando-se Pedro, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus
amava (...). Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, e este? Que será
dele?” Respondeu-lhe Jesus: “Que te importa se eu quero que ele
fique até que eu venha? Segue-me tu”.
Se o discípulo que Jesus amava é aquele que nos faz entender o
ideal de um seguimento do Cristo, Pedro, com certeza, é aquele que sentimos
mais acessível devido aos seus erros e às suas dúvidas,
aos seus impulsos e aos seus limites; Pedro é aquele que começa
a servir quando se torna ciente que aquilo que lhe é pedido é
apenas um grande amor e uma grande disponibilidade. Pedro é aquele que
é enviado para servir e, junto com todos nós, se torna “colaborador
de Deus porque nós somos o campo de Deus” onde o próprio
Deus nos chama para semear e fazer frutificar as sementes do seu amor.
Carlo e Maria Carla
Volpin