Missa de abertura (segunda feira).

“Torna-te vigilante e consolida o resto que estava para morrer, pois não achei perfeita a tua conduta diante de Deus” (Ap 3, 2).

Estamos aqui, com a certeza de que sabemos o que queremos. Nós queremos que, a vocação mais sublime do homem, o chamado à comunhão com Deus; o chamado à santidade dirigido a todos e assumido como meta pelo Movimento das ENS ao qual pertencemos, livre e espontaneamente, se torne cada dia mais consciente em todos os membros das ENS.

Estamos numa sessão de formação.
Sim, queremos formação, necessitamos de formação, porque só Jesus Cristo é Homem perfeito, a imagem e a substancia do Pai. Nós, embora criados à Sua Imagem, precisamos transformar-nos. Transformar é palavra composta pelo prefixo “trans” e o verbo “formar”.

Trans significa que está mais além, aonde ainda não chegamos. Formar, como verbo, indica uma ação a ser feita pelo sujeito, e etimologicamente, significa dar forma a alguma coisa. Portanto a formação implica trabalho, esforço, para dar forma nova àquilo que queremos transformar.

O mundo foi entregue ao homem para ser transformado. Também nós, como pessoas, temos necessidade de uma transformação. Transformar-nos em cristãos adultos e maduros para que resplandeça em nós a original imagem de Deus.

Dizemos, seguindo a voz dos sábios, que, verdadeiramente maduro é aquele que está convencido que ainda não é maduro. O crescimento e a maturidade só terminam com a morte. Quem não está convencido disto nunca procurará transformar-se.

Quem pensa que ainda é imaturo já está em continua formação, aproveita tudo para tirar uma lição, até mesmo os acontecimentos adversos lhe servem de mestre. Quem busca formar-se não perde as oportunidades e os meios oferecidos tanto pela Igreja como pelo Movimento ENS.

O que é que nós queremos formar?

A nossa origem é divina. Nascemos por vontade de Deus. Quando ainda não estávamos no seio materno Ele já nos conhecia. Pelo Batismo nos tornamos filhos de Deus. Mas este filho precisa “tornar-se filho” passando por uma transformação; Deus não semeou o mundo de santos, mas chamou à santidade, mostrou o caminho e se fez “o Caminho”.

A identidade cristã é uma conquista. Cristãos não nascemos, mas, nos tornamos. “Família, torna-te aquilo que és”, dizia João Paulo II. Assim é a identidade cristã. È como uma vestimenta que eu vou tecendo e com ela me vou vestindo. Vestir-se mais ou menos belamente é questão de bom gosto e de esforço pessoal.

Eu me visto de cristão com o meu trabalho, ainda que, contando com a graça de Deus. “Sem mim, nada podeis fazer!”Por isso a formação não é algo que acontece num momento. Não saímos formados com um curso, com numa sessão de formação...

A formação é obra de todos os dias. Somos inacabados até o último dia da vida. Precisamos criar a mentalidade de que precisamos crescer até alcançar a estatura do Homem perfeito, Jesus Cristo. Sem esta mentalidade nada é suficiente de tudo o que se oferece e se propõe.

O nosso “Manual” de formação é o Evangelho; e Movimento das ENS nos dá uma pista, um roteiro para facilitar, nos pega pela mão como faz um pai ou uma mãe com seu filho. Nós escolhemos livremente este roteiro como bom e válido, e damos as mãos a esta mãe e pai, o Movimento das ENS para que nos conduza pelo caminho do Evangelho. Longe de nós querermos criar outro caminho, paralelo!

A formação é um processo e nós estamos neste processo que nos ajuda a conhecer as razões profundas das nossas opções, especialmente as mais fundamentais, nos ajuda a adequar o agir com o ser. O ponto final é agir como cristãos, como Cristo. Até chegar lá a vida é um caminho, um aprendizado, um treinamento.

O que é que nós queremos ser?

Autênticos e maduros. Autênticos cristãos, autênticos casais cristãos, autênticos membros das ENS, autênticos sacerdotes, religiosos. As palavras fundamentais são “autêntico e maduro”. Não queremos que haja nada de encoberto e camuflado, nada de máscaras e farisaico. O que somos tem que transparece para que todos possam ver. A luz não está feita para estar escondida e encoberta.

Voltemos à frase inicial do livro do Apocalipse de São João. O evangelista João fala de vigilância para consolidar o resto que estava para morrer. É justamente isto que queremos fazer nesta Sessão de formação.

Uma alerta para a vigilância, para ver como vivemos o nosso cristianismo; uma alerta para ver como está o ardor dos inícios ou dos grandes momentos da nossa vida cristã e da nossa vida nas ENS, da nossa vida de casados no Senhor e diante do Senhor; e também é uma alerta para ver se tudo está consolidado o que pensamos ser e ter, para ver se tudo foi construído sobre a rocha, se tudo está nos moldes do Evangelho de Jesus Cristo e se tudo em nossa vida é uma revelação de que somos membros vivos da santa Igreja, o Corpo total de Cristo.
Quem caminha para uma meta definida precisa vigiar, pois, ao longo do caminho existem convites, no mais das vezes, muito atraentes, para sair por desvios, com belas propostas de encurtar ou de facilitar o caminho; quem caminha com meta definida, também precisa solidificar o que não se pode perder porque é um valor absoluto: Jesus Cristo, o Homem perfeito, a perfeita imagem de Deus. Quem caminha para a meta não tira os olhos da imagem de Jesus Cristo!

Em que precisamos crescer para que este Cristo seja cada vez mais fascinante? Precisamos crescer na fé em Cristo Palavra e em Cristo Vivo e Ressuscitado, presente entre nós em diferentes maneiras. Ele é a revelação do amor do Pai. Só Jesus Cristo é capaz de dar solidez aos princípios fundamentais da vida autenticamente cristã.

A tentação do secularismo, do subjetivismo ético, do consumismo materialista e a tentação de uma religiosidade superficial e sentimental, sem firmes convicções e sem exigências que comprometam uma vida mais coerente, estão cercando também os cristãos mais convictos.

E não faltam os que caem nesta tentação! Voltar-se para Jesus Cristo é uma necessidade cada dia mais urgente. “Quem me vê, vê o Pai” disse Jesus. “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo, 14, 9.11).

Jesus Cristo, origem e fundamento de todas as coisas, vem ao nosso encontro: como Pai que doa o Filho até a morte de cruz; como Filho que se doa por nós, acolhendo, por nossa causa, a vontade misericordiosa do Pai; como Espírito Santo, amor do Pai e do Filho que nos é dado com dom por excelência.

O Senhor, crucificado e ressuscitado nos mostra que o amor é também a nossa vocação fundamental. Santa Teresinha dizia: “Encontrei minha vocação; minha vocação é o amor”.

Nascemos do Amor; somos frutos do amor, somos amor, e o amor só pode amar. Para isso nascemos, para isso existimos. “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer permanecerá só, mas, se morrer, produzirá muitos frutos”. “Quem ama sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 24-25).

Amar é dar-se e dar-se é saber morrer quando o amor aos outros o exigir. Adquirimos a imagem de Deus quando, como o Pai, sabemos dar o melhor e quando como Cristo nos doamos até dar a própria vida.

Jesus Cristo é a verdade de Deus, do Deus que é Caridade; Jesus Cristo é a verdade do homem, do homem chamado a viver com Deus na caridade. O conteúdo central do Evangelho é um chamado a crer neste Jesus, Filho de Deus e um chamado a amar-nos uns aos outros (1 Jo 3,23).

Nós vivemos o amor de Deus, crendo em Jesus Cristo que se tornou o amor encarnado do Pai e acolhendo este amor que é derramado pelo Espírito Santo, abundantemente, em nossos corações (Rm 5,5). Esse amor do Pai pode ser acolhido plenamente e conhecido concretamente, pela experiência da caridade vivida no amor fraterno. “Amai-vos uns aos outros” (1 Jo 4, 7-8).

Este é o sinal que vos distingue como seguidores de Jesus Cristo, como cristãos. A esta plenitude somos chamados. A forma que precisamos adquirir é a daquele que é a imagem e substancia do Pai. Queremos formação para que este Jesus Cristo se forme em nós, se torne visível e crível em nós.

O que é que nós precisamos? Nas palavras de João Paulo II, o que precisamos é um renovado encontro com Jesus Cristo. Nós assumimos como compromisso, neste ano, fazer um esforço para voltar às fontes, indo ao encontro do Pe. Caffarel. Um encontro com o Pe Caffarel implica um encontro com Jesus Cristo. Não conhece o Pe Caffarel que não descobre esta verdade.
Esta formação nos introduza no caminho para o crescimento na fé. Toda crise, pessoal ou comunitária, é crise de fé em Jesus Cristo e no Cristo total, a santa Igreja. O obscurecimento da fé em Jesus Cristo e na Igreja cria transtornos, e a desordem começa tomar conta.

Não podemos nos eximir de um rigoroso exame de consciência, e pensar qual é o nível da nossa fé nas verdades fundamentais do cristianismo. O descrédito do cristianismo não terá sua raiz na falta de incidência das verdades fundamentais na vida prática?

Queremos que esta sessão de formação seja uma escola de fé. Queremos tirar o véu que encobre tantas verdades fundamentais, as verdadeiras colunas que sustentam a vida cristã.

Que este encontro, o primeiro em nível de Brasil, venha despertar em todos os equipistas brasileiros:
· Um profundo desejo de conhecer melhor a mensagem, a pessoa e a vida de Jesus Cristo.
· Que venha despertar o ideal das ENS, ardorosamente abraçado,
· Venha incendiar o ardor, próprio de quem inicia uma grande aventura;
· Venha nos fortalecer, para acreditar, que a santidade é possível e que o matrimonio é o caminho.

Que Jesus Cristo, buscado e acolhido com amor, seja a nossa coragem e a nossa esperança. Amém.


Pe Avelino.