MISTÉRIO E MÍSTICA DA ECCLESIA

Para começar

Há uma coisa bem interessante nas Equipes de Nossa Senhora: em geral, os casais que "fazem palestras", dão testemunhos, apresentam painéis etc. não são palestrantes profissionais. Essa constatação tranquiliza-nos, porque nós também não somos palestrantes profissionais. Na realidade, nós estamos aqui para desenvolver algumas ideias que são comuns a todos aqueles que abraçam a proposta do Movimento das ENS: seu carisma, sua mística, sua pedagogia, seus métodos. Esse fato reforça nossa comunhão com todos os seus membros.

Após vivermos a maravilhosa experiência de sentir verdadeira caridade fraterna entre os participantes do 11 Encontro Nacional das Equipes de Nossa Senhora, constatar a unidade de nosso Movimento e a sua dimensão internacional, alegra-nos o coração ver hoje aqui tantos casais e conselheiros espirituais, numa atitude de abertura e disponibilidade para o serviço na "vinha" do Senhor, "a qual deve ser transformada segundo o plano de Deus em ordem ao advento definitivo do seu Reino." (Christifideles Laic - CFL,5).

Jesus continua convidando os homens eas mulheres de boa vontade a se inserir na história da salvação: "Ide vós também para a minha vinha". (Mt 20,3-4). Vamos todos, pois, colocarmo-nos a serviço da nossa Igreja, do nosso Movimento, da nossa equipe de base, lugares onde, certamente, encontraremos Jesus. Uma pergunta, aparentemente, simples, dirigida a cada um de nós pode mudar o rumo de nossos projetos de vida: "O que procuram?" (Jo 1,38). Na verdade, a pergunta é um "convite a viver uma experiência: ' Venham e verão' (Jo 1,39)". (Doc.Aparecida,115)

Para bem compreendermos o mistério e a mística que envolvem uma "reunião de equipe", uma pequena Igreja, ou melhor, pequena Ecclesia, na expressão do Pe. Caffarel, pensamos, antes, desenvolver algumas ideias preliminares que serão como que o fio condutor para atingir o objetivo de nossa fala.

Sendo comunidades vivas

Diz o Documento de Aparecida (161) que "a grande novidade que a Igreja anuncia ao mundo é que Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, a Palavra e a Vida, veio ao mundo para nos fazer 'participantes da natureza divina' (2Pd 1,4), para que participemos de sua própria vida." A vida é, pois, o fundamento da "vida cristã". No desejo de elevar o homem à condição divina, Jesus expõe sua missão entre os homens: "Eu vim para dar Vida aos homens e para que a tenham em abundância". (Jo 10,10). Para o homem bíblico, viver é muito mais do que existir. É viver bem; em felicidade.

Em 2006, no X Encontro Internacional das ENS, em Lourdes - França, voltamos todos, casais e conselheiros espirituais, para nossas equipes de base, tendo marcada no coração e na mente a seguinte orientação de vida: "Equipes de Nossa Senhora, comunidades vivas de casais, reflexo do amor de Cristo".

A princípio, não nos demos conta da profundidade dessa mensagem. Indagados sobre o que significaria a palavra "vivas" em nosso contexto de equipistas, fomos desafiados a mergulhar numa buscado sentido evangélico desse termo.

o vegetal depende da luz para se desenvolver. Também o ser humano precisa da luz de Cristo para ter vida. E a vida em Cristo acontece em relação à sua Igreja, da qual Ele é a Cabeça, e nós seus membros.

Ser comunidade "viva" é ser comprometido com o projeto salvífico de Deus e da missão salvadora de Jesus. Essa relação de compromisso se dá mediante a fé, condição fundamental para a vida eterna. Por conseguinte, empenhar-se por uma vida material justa e fraterna, com disciplina ética e discernimento cuidadoso, em fidelidade a Jesus e à sua Palavra, significa realizar desde já uma "vida" nova.

Como cristãos, recebemos a vida nova em Cristo, a qual nos "incorpora à comunidade dos discípulos e missionários de Cristo, à Igreja" (Aparecida, 162), levando-nos a viver fraternalmente e sempre atentos às necessidades dos mais fracos.

Diante das adversidades que se nos apresentam, sentimo-nos, por vezes( fragilizados e perdemos o entusiasmo; dispensamos Deus do nosso íntimo, do nosso ser. Isso ocorre quando nos isolamos em nosso mundo egoísta, nos separamos da videira verdadeira, nos afastamos dos cuidados e zela do Bam Pastor, que só tem um objetivo: comunicar-nas sua vida e colocar-se a serviço da vida. Todos são incluídos no Reino da vida: Jesus come e bebe com os pecadores (Mc 2,16), toca com amor o homem leproso (lc 5,13), deixa uma prostituta banhar-lhe os pés (Lc 7,36-50), convida seus discípulas à reconciliação (Mt 5,24), dá dignidade à samaritana (Ja4,26), alimenta a povo faminto (Me 6,30-44), opta pelos. mais pobres (lc 14,15-24) ... (Aparecida, 163).

É dessa vida nova de que todos nós precisamos: uma vida "viva" que "atinja o ser hum~ma por inteiro, em sua dimensão. pessoal, familiar, social e cultural". Uma vida que enfatiza a alegria de se estar junta com os irmãos, de comer juntas, de trabalhar com amor tendo em vista o crescimento. intelectual, mas também o espiritual, e de poder servir com alegria.

Ousando. adotar esse projeto de vida, nós, casais equipistas, correremos a risco de nos tornamos verdadeiras comunidades "vivas" de casais, apontando para a vida que está em Jesus, e vivenda profundamente, mediante o mandamento do amor.

Permanecendo em Cristo

Ser seguidor de Jesus, fazer parte do grupo de seus amigos, fazer a experiência do encontra e de olhar o seu olhar, dar a vida por amor todo isto é o desejo do Deus em relação a nós. Não. é Ele mesmo que manda Moisés falar a toda a comunidade dos filhos de Israel para que sejamos santos, porque Ele é santa? (Lv 19,2).

Jesus declara ser a videira verdadeira e nós, os ramos (Jo 15,1-5). Simbolicamente representados pelos ramos, nós só temas vida se estivermos presos à videira; se estivermos vitalmente ligados a Cristo. Como membros das ENS, "somos chamados a crescer, a amadurecer continuamente, a dar cada vez mais fruto" (CFL,57). Qual será nossa resposta?

A metáfora da videira é "uma imagem que ilumina não apenas a profunda intimidade dos discípulos com Jesus, mas também a comunhão vital dos discípulos entre si: todos eles vides da
única videira". (CFL,12).

Dentre os temas do "testamento" de Jesus a seus discípulos está o de "permanecer" n'Ele.
Para quê? Para dar frutos duradouros, ser fecundo na comunidade, criar laços entre as pessoas, perseverar "mesmo nos caminhos monótonos do deserto, que têm de ser percorridos na vida, na paciência do sempre igual avançar, onde decai o romantismo do primeiro momento da partida e apenas permanece o profundo, o puro sim da fé" (Bento XVI, 2007).

Permanecer unido a Cristo é aceitar ser chamado a integrar a nova humanidade, produzindo frutos de justiça, de solidariedade, de fraternidade, de amor etc.

Permanecer unido a Cristo é "abrir mão" dos próprios projetos; é desinstalar-se, indo ao encontro de Jesus na pessoa dos desanimados e desesperançados, dos angustiados e deprimidos; é celebrar a vida, a nova vida em Cristo.

Permanecer unido a Cristo é o pré-requisito para se formar uma comunidade cristã, uma pequena Ecclesia.

Constituindo a pequena Igreja

A parábola da "videira" é essencialmente cristológica, conforme acabamos de ver. Todavia ela possui, também, uma dimensão eclesiológica, uma vez que se refere à igreja, no sentido da união inseparável de Jesus com os seus, pois "todos são por Ele e com Ele 'videira', e cuja vocação é permanecerem na videira" (Bento XVI, 226).

Tudo começou com alguns chamados. Jesus chama um, depois outro, e outro até completar os doze. Convocou-os um a um. Formou com eles uma comunidade. Esta se reunia em tomo do Mestre e Senhor. Com e por eles Jesus orou ao Pai; com eles partilhou o pão e o vinho; dividiu sua paixão. Tomaram-se seus seguidores, seus amigos. Estava formada a primeira comunidade cristã apostólica; a comunidade de Jesus, o qual se reunia numa casa, que é ao mesmo tempo o seu lar. "Esta casa-lar já é a casa do Pai, onde Jesus preparou lugar para os seus" (Apud Mateos e Barreto, 1999,528). Aí, a comunidade celebra a nova vida. Afinal, Jesus está presente. Jesus eleva a relação pessoal, pois é nela que o seu amor é manifestado. Claro fica, portanto, que a identidade dos membros dessa pequena Igreja é o amor mútuo; um amor que consiste em se abrir aos outros. l .. ] é o sinal característico, perpétuo, universal dos discípulos de Jesus Cristo" (Missão do casal cristão, 73). Pe. Caffarel orienta para a vivência desse amor entre os membros da equipe. "Precisamos aprofundar, juntos," diz ele, "as grandes leis da caridade fraterna e pô-las em prática, se queremos que perdure e se desenvolva na equipe".

Tendo, assim, formado a primeira Ecclesia, Jesus ora por eles ao Pai. Também, hoje, Ele ora ao Pai por nós: "Pai, manifestei o teu nome aos homens que me deste do meio do mundo. Eles eram teu.s e tu os deste a mim, e eles guardaram a tua palavra. Eu peço por eles. Não peço pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. Eu já não estou no mundo. Eles permanecem no mundo, enquanto eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que tu me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um. Não te peço para tirá-los do mundo, mas para preservá-los do mal” (Jo 17,6-15).

Estando reunidos em companhia da Mãe de Jesus, os discípulos receberam o Espírito prometido pelo Cristo ressuscitado. Inspirados por tal força, foram tomados de fé e coragem para anunciar o Evangelho e expandir a mensagem do Reino de Deus fora de Jerusalém, lugar da primeira Igreja. Espalharam-se pela Judeia, pela Samaria depois por todo o mundo mediterrâneo, fundando as igrejas locais. É importante registrar o alcance eclesiológico da ação dessa equipe. Graças a ela, "Jesus chega até nós: sua mensagem e o conteúdo de sua vida histórica" (Velasco, 1996,29).

No tempo de Paulo, os cristãos primitivos costumavam reunir-se em casas particulares. Para eles, o lar com seu ambiente familiar era a igreja. Paulo via a Igreja, antes de tudo, como a "comunidade local", por isso vamos encontrá-Lo saudando as várias igrejas existentes, fruto da missão dos apóstolos. Em suas famosas "cartas", ele saúda as igrejas de Deus que estão em Corinto (1Cor 1,2; 2Cor 1,1), na Galácia (GI1,2), na Judeia (1Ts 2,14), também saúda "Priscila e Áquila O" e à igreja que se reúne em sua casa."(Rm 16,3-5) etc.

Paralelamente à concepção de igreja como "igreja doméstica", Paulo toma consciência de que Cristo com quem todos os povos cristãos formam um só "corpo" tem papel universal. E, pela primeira vez, fala da Ecclesia, da grande Ecclesia:a Igreja, uma assembléia de cristãos.

Será que, em nossas reuniões de equipe, nós vivemos em espírito de Igreja, em comunhão profunda com a Igreja universal? Temos consciência de que a grande Igreja está presente em qualquer reunião de uma pequena Igreja?

Compreendendo o mistério da Ecclesia

Como entender a presença misteriosa de Cristo na reunião de equipe? "Jesus não pensou sua malte como fim da história, como se fosse a véspera do Juízo Final, pensou num futuro além d'Ele. Além de sua vida terrena" (Comblin, 2005,116).

Ao se entregar à morte de livre e espontânea vontade, Jesus dá início a uma nova história para a humanidade com sua ressurreição. Ele passa a viver no meio da comunidade que "se rei:lne em seu nome". Foi para viver com seus discípulos que Jesus morreu e ressuscitou. Ele ressuscitou, não para viver ao lado do Pai, mas para acompanhar e conduzir a sua Igreja no mundo inteiro animada pelo Espírito Santo.

A fé no Cristo ressuscitado é a fé que temos na sua presença e proteção no meio da comunidade. "Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Mt 28,2Gb). A sua presença é invisível, mas, é mais presente, mais abrangente e mais profunda do que quando Ele vivia no meio dos seus discípulos antes de sua morte.

o Cristo que nos chama é o esposo da Igreja Universal. Estando as Equipes de Nossa Senhora unidas à Igreja, formam com ela um só corpo. Formando com ela um só corpo, têm Cristo como Esposo e, tendo Cristo como esposo, forma com Ele um Corpo Místico. O Corpo Místico de Cristo é formado, pois, por todos os fiéis que aceitam sua proposta de vida. As ENS fazem parte desse Corpo Místico, quando se reúnem, convocadas por Cristo e em volta d'Ele, para fazer e viver o que Ele propõe.

Quando, nas reuniões mensais, os desejos não são os nossos, mas os da comunidade, passamos a viver a fraternidade evangélica, e Jesus toma conta das nossas decisões e ações. A nossa vida se transforma, e esta transformação se irradia na nossa casa, no trabalho, na Igreja etc. Concretamente, Pe. Caffarel ilustra esse fato com o seguinte testemunho de um pároco: "Quando na minha paróquia uma rua me parece por demais poluída, peço a dois casais cristãos que se mudem para lá (isso era antes da guerra!) e deem simplesmente o testemunho de seu amor fratemo. Depois de seis meses, os moradores dessa rua respiram um ar diferente. "(textos escolhidos,56).

Para compreender o mistério da pequena Ecclesia, basta penetrar na residência de um dos casais para examinar o que lá dentro acontece: "Eles foram chamados, convocados por Cristo; responderam pressurosos e aí estão ao redor d'Ele, como a esposa respondendo ao apelo do esposo e a Ele se dando, como esposa que crê nas promessas do esposo e que se faz acolhedora ao dom do esposo." (A Ecclesia,6)

Quando os casais acolhem as promessas de Cristo, as suas reuniões mensais passam a ser oportunidades ímpares para fazerem suas reflexões e elaborarem seus novos rumos, segundo as orientações daquele que os convocou. Assim sendo, esse tipo de reunião culmina com uma comunhão com o Cristo. Comungando com Cristo, a assembléia e o Cristo voltam-se para I.ouvar o Pai. E a assembléia, apoiada em Cristo, com a força do Espírito Santo, volta-se para o mundo que fica além das paredes da residência que a acolheu, a fim de ser "reflexo do amor de Cristo" no mundo.

As Equipes de Nossa Senhora, estando reunidas em volta de Cristo, revelam que "a grande Igreja acha-se presente nesta pequena reunião, como a alma está presente em todos os membros do corpo; a grande Igreja não se divide, Ela está presente em toda parte onde há uma Ecclesia".(A Ecclesia,5). A presença da grande Igreja na reunião da comunidade nos ajuda a entender o mistério da presença do Cristo na reunião de equipe. Sendo Ele a cabeça da grande Igreja, e a grande Igreja estando presente, é certa também a sua presença na reunião de equipe. Eis "o aspecto central deste mistério." (ld.ib.,6).

Para melhor apreender essa condição, faz-se necessário que os casais ajam como o apóstolo Paulo: aceitem que ouviram uma voz, e que a voz era de Jesus, uma voz imperativa, mas cheia de amor e deterlJ1inação. A vivência dessa realidade transforma um simples encontro de amigos em uma reunião de irmãos, cujo cimento é a fraternidade cristã. A essa reunião, o Pe. Caffarel ousou chamar de Ecclesia.

A grande e maravilhosa promessa de Cristo aos apóstolos foi que lhes mandaria o Espírito Santo (Jo 14,26). Agora os apóstolos somos nós; devemos, entretanto, ter cuidado para não fazer como Judas, que recusou receber esse dom e não foi por falta de testemunho e exigência por parte de Jesus. Só assistidos pejo Espírito Santo é que os apóstolos conseguiram ser intrépidos defensores do projeto de Jesus e realizar inúmeros feitos extraordinários e incompreensíveis, ao entendimento humano. Se os apóstolos não estivessem abertos à ação do Espírito Santo, o cristianismo não teria passado de uma pequena seita e, talvez, após 2000 anos, nem existisse. O mesmo pode acontecer com as Equipes de Nossa Senhora. Não adianta Encontro Nacional, Sessão de Formação Nacional, Tema de Estudo,. Pontos Concretos de Esforço etc. se os casais não se abrirem à ação do Espírito Santo. O Projeto do Pe. Caffare sucumbirá e não produzirá os frutos desejados e esperados. Nossas reuniões serão estéreis e não passarão, temporariamente, de agradáveis encontros entre amigos, enquanto não surgirem concorrências internas.
Jesus diz: "se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada" (Jo 14,23). Afirmam Mateos e Barreto(p.631) que "a resposta ao amor a Jesus expressa-se no amor aos outros homens. O Pai e Jesus respondem à fidelidade do discípulo dando-lhe a experiência de sua companhia." Portanto, quando Jesus e o Pai estabelecerem morada nos membros das Equipes de Nossa Senhora, nossas reuniões serão verdadeiramente uma Ecclesia, isto é, o agrupamento dos convocados por Cristo.

Vivendo a Mística da Ecclesia

Quando pensou em falar sobre a "reunião de equipe", Pe. Caffarel tencionou mostrar que esse "encontro de equipistas" trata-se de uma realidade cristã profunda. Por isso o emprego da palavra "mistério" (o que está além de nosso conhecimento) e da palavra "mística" (que diz respeito às coisas divinas ou espirituais). Logo, para se compreender o espírito da reunião mensal de nossas equipes, faz-se necessário olhá-Ia com os olhos da fé, para aí se descobrir a presença invisível de Cristo.

Uma reunião de equipe, para ser verdadeiramente uma pequena Ecclesia, precisa que seus membros observem certas condições: a fé, a ruptura, convocação em nome de Cristo, o auxílio fraterno, escutar a Cristo, responder a Deus, união com a Igreja.

A fé. Deus se abriu para nós: eis a graça. E nós nos abrimos para Deus: eis a fé. F~ é, portanto, "abrir a porta do coração e dizer a Deus: 'Entra, Senhor"(Mbham, 1977, 191). Quando o Pe. Caffa rel fala em olhar com os olhos da fé, é porque a fé é a iluminação que faz descobrir um mundo novo, um "eu" novo (Comblin,95).

A fé nasce de um desejo e confiança profundos na ação de Jesus. Portanto, desejar e confiar são dois processos a serem vividos. Foi assim com todas as pessoas que procuraram o Cristo. "O que é que vocês estão procurando?" Eles disseram: "Rabi, onde moras?" Jesus respondeu: 'Venham, e vocês verão". Então eles foram e viram onde Jesus morava. E começaram a viver com ele naquele mesmo dia" (Jo 1,38).

Vamos à reunião de equipe, porque desejamos encontrar Jesus, invisível, mas presente na pessoa do Conselheiro Espiritual; e porque confiamos na sua promessa de que se faria presente quando nos reuníssemos em seu nome. Dessa forma, um minuto de recolhimento, no início da reunião, para sentir essa presença de Jesus no meio de nós, certamente, mudará o rumo de nossas reuniões mensais (Caffarel,8).

A ruptura. Ruptura, em nosso contexto, quer dizer "rompimento". Para que uma reunião de cristãos, uma reunião de equipe seja uma ecclesia, é preciso romper, separar-nos da família - filhos, pais, irmãos - do trabalho, da diversão - e atender à convocação de Jesus com a alma inteiramente disponível (O sentido de uma vida, 164). Dessa maneira, vamos à reunião de equipe, porque somos convocados. A convocação é o chamado para participar da Assembléia e encontrar o Cristo, com o objetivo de melhor conhecê-Lo, melhor amá-Lo e servi-Lo. Para tanto, precisamos romper com o que nos prende exterior e, sobretudo, interiormente.

Agiram assim todos os que foram chamados. "No dia seguinte, Jesus decidiu partir para a Galileia. Encontrou Filipe e disse: 'Siga-me '''.(Jo 1 ,43). Quando viu Simão e seu irmão André, disse:

"Sigam-me e farei vocês se tornarem pescadores de homens" (Me 1, 17), com Levi, o cobrador de
impostos, Ele chamou: "Vem e segue-me", o qual respondeu com presteza ao seu chamado, e foi assim com tantos outros. E também conosco. O convite para seguir Jesus implica deixar as seguranças que possam impedir o compromisso com uma ação transformadora.

Convocação em nome de Cristo. Da palavra "ecclesia", de origem grega, "clesis" significa convocação. Uma reunião de equipe não consiste apenas em uma reunião de amigos que se querem bem e gostam de estar juntos. Ela deve ser uma resposta afirmativa de nossa parte à convocação de Cristo. Encontrá-Lo é a verdadeira razão de ser da reunião mensal. Vamos para lá por sua causa. Porque é Ele quem convoca. Não é Ele mesmo quem diz "Quando dois ou mais se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles?". Ele especifica bem: "em meu nome', e não em nome da vontade do pároco ou da amizade que se tem uns pelos outros. É a famosa "tentação da amizade" de que fala Pe. Caffarel.

O auxílio fraterno. Na história da Ecclesia, lembramos o comportamento e o modo de vida da primeira comunidade cristã. Para Lucas, a vida dessa equipe mostra o ideal de vida comunitária e o projeto da nova sociedade.

Entre eles, a refeição é o momento especial de gozo e descontração: "tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração". Agimos assim em nossas reuniões de equipe? Ou agimos como os cristãos de coríntios? "quando se reúnem, o que vocês fazem não é comer a Ceia do Senhor, porque cada um se apressa a comera sua própria ceia. E, enquanto um passa fome, outro fica embriagado" (1Cor 11,20).

A propósito, Pe. Caffarel , ao refletir sobre a fraternidade cristã, conta uma história acerca de uma visão que certo sábio chinês teve do inferno e do céu.

No inferno havia uma enorme tigela de arroz, com uma multidão de pessoas sentadas ao redor, magras, descamadas, morrendo de fome, com os olhos vidrados, agonizantes. Como é que morriam de fome, se havia uma tigela tão grande de arroz? É que eles tinham, para comer o arroz, pauzinhos como todo chinês que se preza. Mas os pauzinhos tinham dois metros de comprimento: davam para pegar o arroz, mas não davam para comer. Morriam de fome e isso era o inferno.

Foi transportado ao céu. O mesmo espetáculo: a enorme tigela de arroz e pessoas em volta, bem alimentadas, grandes, gordas, felizes, sorridentes... e com os mesmos pauzinhos de dois metros de comprimento. Só que eles tinham descoberto que, em vez de tentar alimentar a si mesmos, como os do inferno, era melhor cada um dar de comer ao que lhe estava em frente.

O amor fraterno é, portanto, a condição para haver assembléia cristã. O novo mandamento dado por Jesus o diz claramente: "que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei", Portanto, para que nossas reuniões de equipe sejam uma Ecclesia, dois elementos devem ser seguidos com rigor:

a) a abertura de uns aos outros, pondo em comum suas vidas (alegrias, sonhos, descobertas, tristezas, desapontamentos etc.);

b) a determinação de carregar os fardos uns dos outros, como diz São Paulo (GI6,2).

Escutar a Cristo. Na reunião de equipe, há dois momentos privilegiados para se escutar a Cristo. Um deles, pouco percebido, tendo em vista essa finalidade, é a troca de ideias,ou seja, o tema de estudo. Um momento considerado importante para o casal e a equipe procurarem juntos "o pensamento de Deus sobre as grandes realidades da família, da vida leiga e seus problemas" (A Ecclesia,12).

O outro, o momento por excelência, é a escuta da Palavra de Deus. Escuta atenta, com o coração: "Fala, Senhor, que teu servo escuta" (15m 3,10). É, pois, com essa disposição interior que escutamos o que Deus tem para dizer a cada um de nós. Aliás, é o próprio Pai que nos aponta o seu Filho bem-amado e nós diz: "Escutem-no" (Mt 17,5). Como diz o Pe. Caffarel, esse conselho encerra o segredo de toda santidade.

Esse momento da escuta da Palavra é a ocasião em que o SCE ocupa inteiramente o lugar que lhe compete. Ele é o homem de Deus, o homem de Cristo; é ele quem nos comunica a vida de Cristo. É o ministro da Palavra e da Santa Eucaristia.

Resposta a Deus. A atitude voluntária de quem escuta é responder. Da mesma forma, quem escuta a Deus é levado a dar-lhe uma resposta. Maria foi interpelada pelo anjo do Senhor. Passados alguns instantes, ela lhe deu uma resposta afirmativa a partir de sua fé. Então, ter fé é não deixar a iniciativa de Deus sem resposta. A fé, essa deve ser nossa resposta à Palavra de Deus.

Na reunião mensal, a oração da equipe deve expressar a fé de cada participante.· Devemos cuidar para não darmos respostas pessoais e individualistas; mas, antes, que a nossa resposta seja "a manifestação, pela voz de um ou de outro, das grandes aspirações de Cristo; o louvor do Pai por meio de Cristo, a ação de graças de Cristo; uma oração de ampla intercessão pela Igreja e por todos os fiéis" (A Ecclesia, 13).

União coma Igreja. Falamos, anteriormente, na parábola da videira, que "quem não fica unido a Cristo será jogado fora como um ramo, e secará". A pertença à grande Ecclesia é condição necessária para que as reuniões de equipe sejam uma pequena Ecclesia. Se assim não for, elas serão qualquer outra coisa, menos uma reunião de equipe. A declaração de Jesus é explícita:

"Fiquem unidos a mim, eeu ficarei unidos a vocês" (Jo 15,4).

Por conseguinte, "se a pequena Ecclesia não lançar raizes na Igreja, não passará de ~ma seita" (Caffarel,13). A sua inserção na grande Igreja é condição vital; é desta que aquela se alimenta, se fortalece, se revigora e, com fervor, sai a anunciar a Boa Nova do Reino de Deus.

Para terminar

Depois de percorrermos os temas que foram abrindo caminho para descobrir o espírito de uma "reunião de equipe", bem como a sua identidade de pequena Ecclesia, sentimo-nos à vontade para declarar que, agora, é conosco. As pedras do quebra-cabeça foram lançadas no grande tabuleiro da vida. É hora de mostrar, na "vinha" do Senhor, que somos "comunidades vivas de casais", refletindo o rosto e o amor de Cristo na pequena e na grande Igreja. Está, pois, em nossas mãos transformar as reuniões mensais em verdadeiras Ecclesías, ao redor de Cristo, e animadas pelo seu Espírito.

Cida e Raimundo