1. Fundamentação da participação
do SCE nas ENS (Primeira parte).
2. Testemunhas sobre a importância da presença do SCE nas ENS (Segunda
parte).
Introdução.
A participação do SCE nas ENS vem desde o nascimento do Movimento.
Sua participação sempre foi pacífica e nunca questionada.
Nestes últimos anos, com o crescimento das Equipes e diminuição
de sacerdotes, passou-se a questionar sobre o valor e a necessidade da sua participação.
A escassez de padres fez com que se recorresse a outras formas de acompanhamento,
e ao mesmo tempo, como fato mais positivo, fez com que fosse estudado o papel
do sacerdote, tanto nas Equipes de base como nas Equipes dos Quadros de Serviço
(Setor – Região – Província – Super Região
– ERI). A necessidade abriu uma pista de saída emergencial. É
bom lembrar que a porta de emergência sempre continuará sendo porta
de emergência.
Primeira parte:
1. Fundamentação da participação
do sacerdote nas ENS.
Penso ser importante partir das origens do Movimento. Uma mulher casada (Madeleine
d`Heilly) foi em busca de um sacerdote para que a ajudasse viver no matrimonio
uma vida cristã evangélica plena. O Evangelho é para todos
e não poderia favorecer uns mais que outros.
Com seu marido (Gérard), e depois, mais três casais (Ginette e Michel Huet, Marie Françoise e Frederic de la Chapelle; Rosenn e Pierre de Montjamont), por vontade deles e buscado por eles, ajuntou-se um sacerdote (Pe. Henri Caffarel), que se tornou a alma desta Equipe. Assim nasceu a primeira Equipe de nossa Senhora. Sua importância foi tão grande que é considerado o Fundador das ENS.
O Movimento nasceu de uma forma impensada e espontânea (França), e veio para o Brasil, também de forma impensada e espontânea. Não houve uma programação nem para iniciar o Movimento e nem para trazê-lo para o Brasil.
Um grupo de casais do Movimento mariano reunia-se periodicamente para estudar e aprofundar a vida espiritual dos casais, para encontrar pistas de como viver em plenitude a vida cristã no estado matrimonial. Aquele grupo de casais sentia a necessidade de colocar o Evangelho como fonte para suas vidas, para viver santamente a vida conjugal e familiar. A santidade era a meta do grupo, liderado pelo Casal Nancy e Pedro Moncau.
A idéia começa tomar forma.
Por ocasião da festa da Sagrada Família, Pedro
Moncau proferiu uma palestra para casais, cujo tema era: “A família
cristã”.
Nesta palestra foram propostos alguns princípios fundamentais, que, na
opinião do palestrante, deveriam ser adotados pelos casais cristãos.
Os anos passaram e estes princípios, feliz coincidência, passaram a ser adotados pelo Movimento e encontram-se na CARTA das ENS.
Em fins de 1949, Frei Marcel Marie Desmarais, dominicano canadense, proferiu uma palestra para aquele grupo de casais, cujo tema era: “Amor Cristão”. Neste encontro, os casais liderados pelos Moncau, manifestaram ao sacerdote palestrante um desejo que há tempo guardavam no coração: Queremos alguma coisa mais em nossa vida de cristãos casados!
Então o dominicano abriu a porta das ENS com estas palavras: Conheci, em Paris, grupos de casais ligados à revista “L`Anneau D`or”, cujos objetivos parecem praticamente os mesmos perseguidos por vocês. Há naqueles casais o desejo de encontrar uma espiritualidade conjugal e familiar mais profunda, própria, específica para casais. Penso que é isto que vocês estão buscando. A mina estava descoberta.
Aparece a estrela que mostra a “gruta” da fonte do Movimento das ENS.
Desta indicação nasceu a primeira carta de Pedro
Moncau ao Diretor da Revista mencionada, o Pe. Caffarel, datada em 30/11/49.
A resposta não se fez esperar. Parece que Deus tinha pressa para que
tudo acontecesse como aconteceu de fato.
O Pe Caffarel respondeu a carta de Pedro com uma carta escrita em Paris aos
15/12/49. Esta carta do Pe. Caffarel pode ser considerada, a “Certidão
de Nascimento” das ENS no Brasil.
Assim teve inicio uma série de correspondências entre o Pe. Caffarel
e Pedro Moncau, com informações que desembocariam no nascimento
da primeira ENS no Brasil, dia 13/05/50. (Penso que estas correspondências
se encontrarão no Secretariado Nacional, em São Paulo).
O sonho do casal Moncau e companheiros de grupo torna-se realidade reconhecida pela Igreja.
Hoje, graças ao casal Moncau, contamos, no Brasil, com um Movimento de Espiritualidade Conjugal (e Familiar, como conseqüência) muito expressivo e muito bem conceituado pela Igreja Hierárquica do Brasil. Nascido de forma espontânea cresceu muito rapidamente.
Nascimento da Carta (Estatutos).
Como Movimento organizado, conta com Leis, Pedagogia e Instrumentos de santificação próprios, que se encontram nos Estatutos, lançados aos 08/12/47, e definitivamente aprovados pela Santa Igreja, aos 26/07/2002, através do Decreto do Pontifício Conselho de Leigos, com as palavras:
“Considerando a irradiação apostólica do Movimento e o aprofundamento da formação dos membros, tendo em vista a Constituição Apostólica PASTOR BONUS sobre a Cúria Romana e o Cânon 212 $ 1 do CIC, o Pontifício Conselho para Leigos, decreta:
* 1. A confirmação do reconhecimento do Movimento
das ENS, como Associação Privada Internacional de fiéis.
* 2. “A aprovação definitiva dos Estatutos das ENS”.
Vaticano, 26 de julho de 2002, dia de São Joaquim e Santa Ana, Pais de Nossa Senhora.
James Francis, Stanislau Rieko Staffard
Presidente Secretário.
Igreja e ENS.
O Movimento das ENS é uma parcela da Igreja, uma comunidade da grande Comunidade-Igreja. Entre outras definições que hoje damos à Igreja é esta. “Uma comunidade de comunidades!” É dentro desta Igreja que queremos considerar o papel do Sacerdote, entre nós, SCE. Por que e para que a presença do sacerdote nas ENS, Movimento de Leigos e para Leigos?
A Equipe de Nossa Senhora é uma Comunidade de fiéis, membros do Povo de Deus. Queremos ver a função do sacerdote nesta comunidade, ENS, parcela do Povo de Deus, legitimamente constituída e aprovada. Não é questão de pesquisas, de procurar razões de conveniência e de tradição dentro das ENS, ainda que válidas estas também, para justificar a presença do sacerdote nas Equipes.
O Código do Direito Canônico, pelo qual se rege a Igreja, diz assim: Por divina instituição, graças ao sacramento da ordem, alguns entre os fiéis, pelo caráter indelével com que são assinalados, são constituídos ministros sagrados, isto é, são consagrados e delegados, a fim de que, personificando a Cristo Cabeça, cada qual no seu respectivo grau, apascentem o povo de Deus, desempenhando o “munus” de ensinar, santificar e governar (CIC, 1008).
As ENS são um Movimento de Igreja e existem para a Igreja, como qualquer órgão do corpo existe para o corpo todo. Os olhos são muito importantes, necessários para um corpo perfeito, mas no corpo. Fora do corpo para nada servem. Assim acontece com as Equipes de Nossa Senhora: São membros do corpo da Igreja. Por isso foram por ela aprovadas. Portanto este povo, e dentro deste, as Equipes, tem o direito de contar com a atenção e com o serviço do ministério sacerdotal.
O Vaticano II, em vários e expressivos documentos, assinalou o lugar especial que os sacerdotes ocupam na vida da Igreja (LG, SC, OT, Christus Dominus).
Uma riqueza para a Igreja.
As ENS, como Movimento, representam um enriquecimento para a mesma Igreja. O sacerdote não pode negligenciar e menos ainda menosprezar esta riqueza; deve antes, aproveitar o máximo de seus dons para colocar-se à sua disposição.
Os Movimentos e Associações, para serem aprovados, são analisados com critérios rigorosos no que diz respeito às suas características e finalidades. Para a sua aprovação e para ser reconhecida como eclesial devem preencher todas as condições exigidas pela Igreja.
O Movimento está em plena comunhão com a Igreja Universal e Local. Não seria eclesial e nem seria obra de Deus se não houvesse comunhão com a Igreja e se não promovesse esta comunhão, a grande meta pedida por Jesus Cristo: “Que sejamos um, como Eu e o Pai somos Um” (cf. Jo 17, 11; 10,30). Não seria eclesial se não buscasse a santidade dos seus membros e se não se colocasse ao serviço da mesma Igreja.
Função essencial e insubstituível do sacerdote.
Em qualquer grupo eclesial, nas ENS em especial, o sacerdote dever estar convencido que está desempenhando uma função essencial e insubstituível. Não há comunhão eclesial sem a mediação da hierarquia, da qual o sacerdote faz parte.
Nas Equipes, como em qualquer grupo eclesial, o sacerdote está chamado a exercer as funções sacerdotais, nada menos, mas também nada mais. Nelas encontra um campo privilegiado para exercer o seu ministério sacerdotal (cf. Paulo VI). No exercício do ministério sacerdotal estão implícitas outras funções, também necessárias para uma vida eclesial plena, que brotam do sacramento da ordem.
Principais funções do SCE nas Equipes:
· Acima de tudo, no seio da Equipe, o sacerdote é
um sinal sacramental, um sinal da presença de Cristo, Cabeça da
Igreja. A Equipe é uma “pequena Igreja”, como a família
também é uma Pequena Igreja.
· Nelas o sacerdote exerce o ministério sacerdotal, em primeiro
lugar, como educador da fé, como ministro da Palavra de Deus. A função
primeira do sacerdote é catequizar e evangelizar. “Ide, evangelizai!”
(cf. Mt, 28, 19-20; Lc, 4, 18) Não há comunidade eclesial viva
sem esta ligação permanente com a Palavra. A vida cristã
deve estar sempre se confrontando com esta Palavra.
· Também está implícito no exercício do sacerdócio, o sentir-se inserido na comunidade. Não teria razão de existir o sacerdote se não fosse a comunidade da qual saiu e para a qual consagrou a vida. O sacerdote conselheiro espiritual faz parte da Equipe.
· O sacerdote é tirado do meio do povo em favor do mesmo povo (cf. Hb, 5, 1).
No processo da educação da fé, o sacerdote é o mais autorizado interprete da Palavra de Deus, embora não o único. Para esta missão foi chamado por Cristo e enviado pela Igreja. A assembléia do Povo de Deus é reunida pela Palavra de Deus proclamada pela Igreja .
Ninguém se salva sem a fé. A vontade de Deus é que todos escutem a Palavra geradora de fé salvadora. A fé nasce e alimenta-se da Palavra ouvida. Por mandato do mesmo Senhor, os sacerdotes devem ser doutores na ciência divina. Educa-se o Povo de Deus educando a fé.
É dever do sacerdote, educar a fé através da Palavra para que cada um possa descobrir a verdade nela contida, acolhê-la com amor e transforma-la em alimento.
· A animação da mística para a vivencia dos PCE depende em grande parte do SCE.
· Nos encontros e reuniões, o SCE está ocupando um lugar de responsabilidade eclesial, está aí em nome da Igreja e por ela responde; ele representa a autoridade da Igreja, fala em seu nome, e é responsável pela integridade e pureza da sua doutrina.
· Em virtude do sacramento da ordem os sacerdotes exercem as funções de pais e mestres.
O SCE diante dos membros das ENS.
· Os sacerdotes devem reconhecer a dignidade dos leigos e deixar que desempenhem seu papel como membros ativos da Igreja e não só na Igreja, usando os dons concedidos por Deus. Essa é a hora dos Leigos!
· Os sacerdotes apóiem e prestigiem as Associações e Movimentos leigos que tanto bem trazem para a Igreja. Penso até que, restringir ou impedir a ação dos Leigos na Igreja é esconder a luz e tapar o sol que brilha para todos, é enterrar os talentos, dons de Deus para o bem de todos.
· Os sacerdotes saibam escutar os leigos com uma caridosa e paciente atenção e saibam reconhecer, na fé, os seus carismas.
· Deus concede livremente a todos os fiéis muitos dons. Muitos fiéis são chamados a uma vida espiritual mais intensa, mais profunda. Os sacerdotes olhem e acompanhem com especial atenção para estes.
· O sacerdote não pode abdicar da função de ser sinal e instrumento de unidade e comunhão dentro da Equipe e no seio da Igreja. Esta missão deve ser exercida com amor e a qualquer preço, pois a “Igreja é mistério de comunhão” dos cristãos com Cristo e dos cristãos entre si.
· O sacerdote tem a função de levar aos leigos o pensamento do Pastor Supremo da Igreja Universal e também da Igreja Particular com toda sua pureza original.
· Sejam os sacerdotes defensores e promotores da verdade pura do Evangelho (a 1ª das 3 atitudes).
· Sejam “O Bom Pastor” no meio da comunidade. (Por sua vez,
os fiéis sintam-se obrigados a acolher seus padres com amor filial, como
pastores e pais; participem de suas preocupações e sejam um auxílio
para eles). Isto vocês sabem fazer e o estão fazendo muito bem.
A santidade do sacerdote.
· O sacerdote deve buscar a perfeição cristã como qualquer batizado, mas o sacerdote tem uma razão especial que obriga buscar a santidade: Por ter-se consagrado a Deus de um modo novo, na ordenação sacerdotal, para agir como instrumento vivo de Cristo, sacerdote eterno, para continuar a obra de Cristo, isto é, reunir os homens com a força do Alto para que haja um só rebanho.
· O sacerdote se santifica com o exercício do
próprio ministério. O ministério sacerdotal é santificador
e santificante. A graça especial do sacramento da ordem é derramada
no exercício do sacerdócio, nas ações tipicamente
sacerdotais. Sacerdote preguiçoso para exercer seu ministério
está obstruindo o canal da graça que vem através do exercício
do sacramento da ordem.
· Procurem levar os membros da Equipe para a santidade, servindo-se dos
instrumentos oferecidos pelo Movimento e pelos meios oferecidos pela Igreja.
A meta é sempre a razão última de tudo que faz.
Preocupações dos SCE
· O SCE preocupe-se, esmere-se em ser unicamente sacerdote no seio da
Equipe e não passe desta raia. Quando o sacerdote ocupa seu lugar, o
leigo se tornará mais responsável.
· Cuidado com a superficialidade que deixa no meio do caminho grandes
multidões.
· Procure a solidez em tudo o que é essencial na vida cristã,
sem ocultar o que deve ser afrontado com mansidão, mas também
com coragem.
· Especial preocupação pela formação em todos
os níveis.
· Preocupem-se para que os membros da equipe sejam ativos na Igreja,
mas com uma ação, que seja fruto da maturidade espiritual. Equipe
ativa, mas sem maturidade espiritual, sem profundidade, está destinada
a acabar.
· Os SCE procurem conhecer o Carisma, a Mística e a Pedagogia
do Movimento. Ninguém ama o que não conhece. “Ora, se um
cego conduz outro cego, ambos acabarão caindo no buraco” (Mt, 15,
14). Sem este conhecimento é difícil, é impossível
ser “bom conselheiro”.
· Evitar o perigo do ativismo sem ser fundamentado na vida interior profunda
que sempre deve estar em crescimento.
· Evitar o oposto ao ativismo, o conformismo e passivismo. Seria perder
de vista o horizonte das ENS. Lembremos as palavras de João Paulo II
no documento “Chritifideleslaici”, nn. 29-30. Também os leigos
têm a missão de levar as almas a Cristo para realizar aquela Igreja
na qual o sacerdote se reconhece como responsável primeiro.
· Sintam-se membros da Equipe, amem os casais da Equipe, adotem a Equipe
como vossa família e nela sintam a responsabilidade de irmão maior.
· Façam da Equipe o seu “Monte Tabor”, lugar de encontro com Jesus Ressuscitado, lugar de descanso, de paz e felicidade. “Como é bom estar aqui! Façamos três tendas...”.
· Padre que é padre mesmo, sente a felicidade de estar no seio de uma Equipe porque nela encontra um lugar privilegiado para viver o seu sacerdócio em plenitude, e ao mesmo tempo, sente-se altamente recompensado pela convivência familiar e fraterna.
Expectativa dos casais em relação ao seu sacerdote.
Os casais das ENS esperam muito do SCE em doutrina, em espiritualidade, em coerência de vida e santidade.
Não apaguemos do coração destes casais, estas esperanças e estes sonhos. Lembremo-nos sempre das encorajadoras palavras de Paulo VI: “Não hesiteis em dar o melhor da vossa competência, das vossas forças e do vosso zelo pastoral a este privilegiado campo apostólico. Nele encontrareis uma porção da Igreja de que sois pastores. Não cedais à tentação de crer que o vosso trabalho pastoral se limita a um pequeno grupo de cristãos/.../.Vós os ajudais a aprofundar a sua vida cristã; que a vossa se aprofunde em igual medida” (Paulo VI, em 22/09/76 aos SCE).
Terminado, somos livres (em termos) em aceitar a missão de ser SCE; mas, se aceitamos, sejamos SCE de verdade, comprometidos em buscar o melhor, para nós e para eles.
Às reuniões devemos ir felizes, cheios de esperança
e ardor apostólico, com a convicção de que lá dentro
da Equipe somos um sinal, o sinal de Cristo que representamos; lá dentro
somos a luz, aquela que acreditamos estar brilhando dentro de nós pela
vida espiritual específica do sacerdote.
É esta luz que os casais querem ver brilhar em nós. Oxalá,
tanto nós quanto eles, possamos descobrir o significado da nossa presença
no ceio da Equipe!
Amemos o Movimento das ENS e descobriremos a beleza da vocação e do ministério sacerdotal e descobriremos também a beleza da vocação matrimonial. Descobriremos que os dois sacramentos que exigem um amor total e exclusivo caminhando de mãos dadas, felizes por poder servir. Amém!
Segunda parte.
2. Testemunhas da importância da presença do SCE nas ENS.
Foi-me solicitado para colocar alguma coisa de importante sobre a presença dos SCE nas Equipes de Nossa Senhora no Brasil. Ocupei um bom tempo em pensar o que poderia ser útil refletir sobre esta missão.
Nas horas escuras da noite, quando a gente descansa sem dormir, veio-me esta luz que quero vê-la como vinda do Alto e fiz esta opção:
Vamos escutar a voz da experiência.
1. Não poderíamos começar com testemunhas sem apelar ao Pe. Caffarel. A importância dada pelo Pe. Caffarel ao serviço em favor das ENS podemos ler pelos anos dedicados a elas: dedicou 66 anos para as Equipes, sua vida sacerdotal toda.
A partir do dia 19 de abril de 1930, data da sua ordenação sacerdotal, até dia18 de setembro de 1996, dia em que voltou á Casa do Pai, sua vida foi dedicada integralmente aos casais das ENS. Esta dedicação é o testamento do apreço que ele tinha pelas Equipes. Foram 66 anos voltados exclusivamente aos casais do Movimento. Quanto bem fez à Igreja nesta missão!
Alguém poderia dizer que ele desperdiçou o tempo? Haverá vidas mais fecundas, pastoralmente falando, do que a do Pe. Caffarel? Um homem “arrebatado por Deus” não poderia deixar de abraçar também a causa de Deus: Salvar a humanidade. Estará salva a humanidade sem salvar o matrimonio?
Foi “um homem arrebatado por Deus”, e eu acrescento, um homem arrebatado pelos casais. Santa Teresa de Ávila dizia que daria mil vidas para salvar uma só alma.
Vamos dar nossa breve vida para salvar o casamento como foi idealizado pelo Criador e mostrar aos casados que não estão excluídos da grande vocação, sanidade.
Sejamos, neste caminho que queremos percorrer juntos, uma luz. Se nós ajudamos, também somos ajudados. A ajuda é mútua.
O Pe. Caffarel foi um homem que acreditava e confiava nos casais. Quando convidado pelos casais da primeira Equipe, empenhada em descobrir a verdade sobre o sacramento do matrimonio, com humildade, respondeu: “Procuremos juntos”.
Ele fez o caminho com eles. Foi equipista com os equipistas e sacerdote para os equipistas. Santificou-se percorrendo o caminho em companhia dos casais para juntos realizar a vocação comum a todos: a santidade. Os dois “sacramentos de serviço”, assim classificados pelo Catecismo da Igreja Católica, buscam a santidade fazendo da vida um serviço.
2. Uma segunda voz: As palavras do Papa Paulo VI dirigidas aos Casais e Conselheiros Espirituais por ocasião do encontro de Roma em 1976: “Não hesiteis em dar o melhor de vossa competência/.../ a este privilegiado campo apostólico!”
Será que há necessidade de mais argumentos para convencer que a missão do SCE nas ENS é das mais belas e mais fecundas? Será que continuamos com fome de mais testemunhas depois destes dois? Não seria necessário mais nada, mas vamos recorrer a outras.
3. Uma terceira voz: Um jovem casal perguntou a um sacerdote
se aceitaria ser o SCE da sua Equipe que estava apenas nascendo, ainda em pilotagem.
Eram 5 casais, mais o casal piloto. O padre não tendo nenhuma experiência
e nenhum conhecimento, entregou-se, como estavam entregando-se os casais, colocando
toda confiança no casal piloto.
Entreguei-me, disse o sacerdote, confiando no casal piloto que se fez porta-voz
do Espírito Santo e da Carta do Movimento. Foi uma experiência
muito feliz. Sentia-me muito bem nas primeiras reuniões; sentia-me como
um aluno na escola. Comportei-me como aluno aplicado, muito interessado; aprendi
o que precisava aprender sobre o matrimonio no dia a dia da vida do casal da
família.
Durante o primeiro ano, disse ele, fui testemunho de um verdadeiro nascimento, para mim e para os casais. Foi uma família que nasceu.
Por razões de trabalho, dois casais tiveram que sair da Equipe. Foi o meu primeiro sentimento de dor, foi a prova de que me sentia realmente membro da Equipe e do que sentia por ela. Ela já fazia parte da minha vida.
Foram acolhidos outros dois casais, em substituição e para recompletar a Equipe. Foi como se tivessem nascido dois filhos gêmeos dentro da nossa família, a Equipe.
Assim foram recebidos, como novos filhos. Internamente, pelo sentimento de dor pela saída forçada dos dois casais, e pelo acolhimento feliz dos novos casais, a Equipe mostrou estar estruturada e madura.
Com a saída do casal piloto, após o termino da pilotagem, tanto o padre como os casais começaram a sentir como estava a estrutura interna de cada um e da Equipe. O interesse e a responsabilidade do padre e dos casais se afirmaram e cresceram.
Cresci muito com as reuniões preparatórias na casa do casal responsável. Começamos juntos nos interessar mais pela Equipe, buscando fazer de tudo para mantê-la viva e com vontade de crescer.
Foi durante a reunião preparatória que resolvi ficar simplesmente a serviço da Equipe, nem locomotiva e nem reboque dela.
* A serviço da Equipe, como um equipista: Ando, rezo, medito, partilho, faço tudo com eles e como eles.
* A serviço da Equipe, como um sacerdote: Respondo aos questionamentos, encorajo, exorto...
Relatando este testemunho me obriguei fazer um exame de consciência
sobre o meu comportamento e me sinto obrigado, interiormente a ter muito cuidado
sobre alguns pontos:
* Favorecer o que faz crescer a amizade.
* Cuidar para que cada um descubra os apelos do Senhor na própria vida e na vida da Equipe.
* Recordar as exigências do Movimento.
* Despertar a preocupação de manifestar sua pertença ao Movimento respondendo aos apelos do Setor.
Concluindo, penso que as ENS são lugares da pastoral
onde o sacerdote pode encontrar condições favoráveis para
o exercício daquilo que é especificamente sacerdotal na sua missão.
(Pe. André Leduc) da carta mensal francesa.
3. Vamos para outro testemunho, o Pe. Bernard Olivier, o.p. Um sacerdote, professor
de Teologia nas Universidades européias e assessor no Concilio Vaticano
II.
Foi convidado a substituir o Pe Tandonnet como terceiro SCE da ERI. Apresentei todos os planos que tinha em mente realizar ao terminar minha missão dentro da minha Ordem Dominicana. Responderam que tudo aquilo que pretendia fazer, poderia fazê-lo nas ENS. Manifestei meu desejo de trabalhar na América Latina e me responderam que o Brasil está na América Latina e no Brasil as ENS estão em pleno desenvolvimento. Portanto teria trabalho de sobra. Não tive como me escapar e aceitei o convite.
Diante do convite aceito, fez esta declaração: O que mais me seduziu foi a idéia de trabalhar com casais, com pessoas que vivem todos os problemas do dia a dia. Depois, o que me seduziu na proposta das ENS foi o dar-me a oportunidade de consagrar os próximos anos de minha vida a serviço do amor.
Parece-me que, no mundo de hoje as ENS têm uma missão
bem precisa e muito urgente. Mostrar pelo mais convincente tipo de demonstração,
provando pela vivência, que o amor existe, que é possível,
que ele se desenvolve no casal, no casamento e que, sustentado pela graça
do sacramento, pode ir até o fim de si mesmo.
Esse fim é a santidade. Numa palavra, ser testemunhas vivas da felicidade,
num mundo que não mais crê nela. Ser provas vivas da identidade
amor-felicidade-santidade. Nada mais do que isso. Desculpem se acham pouco!
Mas é aí que somos chamados. É aí que o mundo precisa de nós. É aí que entramos diretamente no plano de Deus. É aí que nos é pedido dar contas da nossa esperança e comunica-la.
Fui visitar o Pe. Caffarel em Troussures, e perguntei a ele se esta maneira de ver não estava por demais herética para seu gosto. Ele mostrou-se satisfeito e me assegurou que estava completamente dentro do “carisma fundador”das ENS. Da minha parte senti-me arrebatado, tranqüilizado, encorajado.
Eis o desejo que formulo ao começar meu trabalho. Colocando-me
ao serviço das ENS, quero colocar-me realmente a serviço do amor;
aquele amor que Deus lhes deu, que Ele consagrou, que Ele fez caminho de santidade
para vocês, em fim, aquele amor que Ele quer que vocês coloquem
como uma grande luz sobre o candeeiro para que todos vejam e glorifiquem o vosso
Pai.(CM julho 1986).
4. Finalmente uns lembretes do mesmo Pe Bernard Olivier, em sua carta dirigida
aos Conselheiros espirituais, falando do papel dos conselheiros espirituais
na Equipe:
“Conforme é do conhecimento de vocês, existe uma excelente brochura consagrada ao Conselheiro Espiritual.
Parto do principio que todos os conselheiros a leram... mas
não teria coragem de pôr as mãos no fogo desde que verifiquei,
com enorme surpresa, que muitos casais pertencem às ENS, há já
tanto tempo...nunca leram os Estatutos!
É preciso ler ou voltar a ler esta brochura que descreve muito bem o
papel do Conselheiro Espiritual. Por meu lado queria simplesmente enfocar alguns
aspectos práticos:
1. o conselheiro é membro de pleno direito da Equipe, está na Equipe a título de seu sacerdócio ministerial para exercer esse sacerdócio. Segundo uma fórmula feliz, a ENS descobre “o casamento dos nossos dois sacramentos”/.../.
Portanto, o conselheiro espiritual não é:
* Um assistente que vem fazer conferencia uma vez por mês.
* Um padre que se limita “assinar o ponto”.
* Um autocrata que vem ensinar em tudo, que impõe seu ponto de vista e que se considera como verdadeiro responsável da Equipe.
As ENS são um movimento de leigos, melhor, de casais/.../; é importante que o padre esteja presente de uma forma ativa, mas com discrição e humildade. Participa em todas as atividades da Equipe segundo a sua própria condição.
2. Ele deve entrar na amizade da Equipe. Não creio que
seja possível formar uma Equipe autentica, no espírito do Movimento,
se ela não for cimentada por uma real amizade/.../.
O conselheiro espiritual é um elemento determinante para atingir esse
objetivo. Ele é um elemento essencial para criar unidade e comunhão/.../.
3. Ele tem uma missão de vigilância. Julgo que, entre todos os membros da Equipe o Conselheiro Espiritual tem que estar particularmente atento a três coisas:
a) Por um lado deve preocupar-se com a fidelidade ao carisma fundador. É verdade que tem os Estatutos e documentos autorizados, mas sabemos que cada Equipe tem sua mentalidade, a sua personalidade e até as suas opções.
O conselheiro espiritual dever ser de certa maneira a memória viva da intuição fundadora no próprio seio das procuras e das experiências.
Mas, por outro lado ele deve também estar atento à abertura da Equipe aos problemas do nosso mundo; não somos nem peças de museu e nem testemunhas tardias de tempos passados; somos células da Igreja construindo hoje o Corpo de Cristo.
b) Entre os diversos pontos de esforço previstos nos Estatutos, como Padre, precisa preocupar-se particularmente pelo progresso na oração/.../.
Ele mesmo deve ser homem de oração e saber fazer amar e encorajar para entrar no “Palácio do Rei”.
Não esquecer que a verdadeira oração (refiro-me à
oração-contemplação )não é uma coisa
fácil e que por vezes lhe conferimos essa etiqueta com demasiada ligeireza.
c) Enfim, na orientação atual das ENS, na perspectiva da Segunda Inspiração e de acordo com as recomendações do próprio fundador, é preciso ajudar os casais a descobrir, a viver o sentido humano e cristão da sexualidade. Neste campo o Conselheiro tem um papel importante a desempenhar/.../.”
Bernard OLIVIER, SCE/ERI.
Creio que estas são luzes que ainda não se apagaram; são vozes que nas ENS têm um grande peso.
Permito-me mais um depoimento, de Dom Serafim, Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG:
Um casal lhe fez uma visita de cortesia para lhe falar das ENS.
Dom Serafim prometeu enviar uma carta aos SCE. Desta carta de Dom Serafim tirei
alguns pontos que coloco aqui, literalmente.
Começa lembrando uma frase de S. Paulo: “Não fiquemos na
ignorância a respeito das manifestações do Espírito”
(1 Cor 12, 1). “Podemos dizer que uma das manifestações
mais vigorosas dessa presença do Espírito Santo na Igreja de Deus,
no pós-Concílio, se tem caracterizado pelo surgimento de inúmeras
modalidades de organizações dos leigos para o exercício
do seu protagonismo/.../, através de Movimentos Apostólicos e
de Espiritualidade/.../.
Entre esses gostaria de comentar sobre as ENS e pedir o favor de sua atenção
pastoral sobre esse Movimento que tem prestado excelentes serviços em
favor da família e da sociedade conjugal.
Assim permito-me fazer-lhe um apelo de Pastor, que é este: Se em seu coração sacerdotal a vocação para o serviço à família – a grande prioridade de nosso tempo – estiver clamando por uma ação mais efetiva e eficaz, gostaria de recomendar-lhe que buscasse contatos com as ENS. Elas têm todo o nosso apoio e simpatia, como o tem tido também da parte do Santo Padre, que as têm recomendado, repetidas vezes, à atenção e cuidados pastorais dos sacerdotes”.
Dom Serafim, Arcebispo de B.H. (CM de agosto de 2002).
Termino dizendo que basta descobrir o valor do Movimento das
ENS e a missão do sacerdote dentro da Igreja para livrar o Movimento
do pesadelo da falta de SCE. Não ignoro as dificuldades de muitos lugares
deste imenso Brasil. Mas, saibamos que estamos buscando soluções,
suprindo o que falta, mas continua sendo essência às ENS.
São de Dona Nancy, de feliz memória, estas palavras: “As
ENS não existiriam sem eles, pois, embora sendo um Movimento de leigos
casados, conta com a presença do sacerdote em todas as fases de sua vivência,
organização e desenvolvimento” (CM, agosto de 2002).
Deus seja generoso e misericordioso, e nos mande mais vocações
santas nascidas de santos casais das ENS.
Que a vocês todos não falte nunca o que amam de coração:
sacerdotes segundo o coração de Jesus Cristo.
Pe Avelino